Publicado originalmente em Newsletter Franchising 4.0, no LinkedIn.

A feira encolheu. O Franchising não. E isso diz tudo

A Expo ABF 2026 foi menor do que se esperava, e o debate que ela gerou foi maior do que qualquer edição anterior. Para quem acompanha a transformação estrutural do setor há anos, o sintoma era previsível. O diagnóstico, porém, ainda está sendo processado.

Por Lucien Newton 23 min de leitura

Havia algo diferente no ar do Expo Center Norte na semana de 24 a 27 de junho de 2026. Não era apenas o calor úmido de São Paulo naquele início de inverno insólito, nem o barulho inevitável de corredores ocupados por stands coloridos e equipes de vendas bem treinadas para sorrir na hora certa. Era outra coisa, uma espécie de desconforto silencioso que percorre o setor quando a realidade insiste em chegar antes da narrativa oficial.

A 33ª edição da ABF Franchising Expo aconteceu. Marcas foram expostas. Candidatos circularam. Negócios foram iniciados. E ainda assim, para quem conhece o evento desde suas primeiras edições e tem olhos calibrados para ler o mercado além das aparências, a sensação era de que algo havia mudado de forma irreversível, não apenas na feira, mas no próprio fundamento que a sustenta.

Minha contagem aproximada pelos corredores encontrou cerca de 170 stands ativos, sendo aproximadamente 120 de franqueadoras e 50 de fornecedores. Números que, em anos anteriores, chegavam a 250, 300, às vezes mais. O pavilhão anexo, aquele espaço que nas últimas edições transbordava de novidades e marcas em ascensão, praticamente não existiu desta vez. Os metros quadrados que sobraram foram convertidos em telões para exibição dos jogos da Copa, cadeiras avulsas e ampliação da praça de alimentação. Uma resignação estética que revelou mais do que qualquer estatística poderia.

Marcos tradicionais do franchising brasileiro, redes que por décadas definiram o que significa estar presente na maior feira de franquias do mundo, simplesmente não estavam lá. Algumas redes dividiram stands. Houve bem menos distribuição de brindes. O estacionamento, cobrado a noventa reais a diária, ficou visivelmente menos cheio do que em edições anteriores.

Esse detalhe, aparentemente trivial, contém a chave para entender o que está acontecendo com o franchising brasileiro, e por que a discussão sobre a Expo ABF diz muito mais sobre o futuro do setor do que sobre o evento em si.

Desde 2020, venho usando o termo Franchising 4.0 para descrever um conjunto de transformações que, na época, pareciam especulativas para muitos interlocutores do setor. A ideia central era simples, embora suas implicações fossem profundas: o franchising estava passando por uma mudança de paradigma comparável às três revoluções anteriores que definiram o modelo ao longo do século XX. Não era uma questão de digitalizar processos existentes, mas de reconfigurar a lógica inteira de como franqueadoras se relacionam com candidatos, como franqueados operam com eficiência, e como marcas constroem autoridade num ambiente onde a informação deixou de ser escassa e passou a ser abundante, quase excessiva.

Naquele momento, o ceticismo era compreensível. O mercado brasileiro de franchising atravessava um ciclo de crescimento robusto. A digitalização avançava em ritmo gradual. As grandes feiras continuavam lotadas. A narrativa dominante era de expansão, não de disrupção. Falar em obsolescência de modelos consagrados, naquele contexto, soava como alarmismo intelectual de quem havia lido um livro a mais sobre transformação digital.

Hoje, em junho de 2026, a realidade encontrou a tese.

Não de forma catastrófica. O franchising brasileiro não está em crise, e seria desonesto sugerir isso. Os números do setor, mesmo com ressalvas metodológicas que merecem discussão, seguem positivos. A interiorização avança: segundo dados citados nos grupos de especialistas que acompanhei nesta semana, redes de franquias já operam em 3.927 dos 5.571 municípios brasileiros, um crescimento expressivo em relação a edições anteriores do censo setorial. Mais de 275 franqueadoras brasileiras já possuem unidades no exterior. O modelo produz renda, emprego e empreendedorismo em escala que nenhum outro formato de negócio replica com a mesma consistência.

O que está em crise não é o franchising. É o modelo operacional pelo qual o franchising se apresentou ao mundo durante as últimas décadas. E a Expo ABF, neste ano, foi o sintoma mais visível dessa crise de modelo.

Nos dias seguintes à feira, acompanhei dois grupos de WhatsApp compostos por alguns dos profissionais mais experientes do setor no país, franqueadores veteranos, consultores com décadas de atuação, advogados especializados, diretores de expansão, ex-dirigentes da própria ABF. O que ocorreu nesses grupos foi, em si mesmo, um fenômeno digno de análise.

Um franqueador veterano, fundador de uma das redes mais longevas do setor e frequentador da Expo ABF desde 1990, quando ainda era um recém-franqueado da moda e o evento ocupava um pavilhão escuro do Anhembi, foi um dos primeiros a colocar em palavras aquilo que muitos sentiam mas hesitavam em escrever. "Não estamos mais numa calda longa de um modelo", ele escreveu, com a clareza de quem acumulou décadas de observação empírica. "Estamos de fato numa contagem regressiva para o seu desaparecimento. Uma contagem angustiante para a maior transformação da relação entre quem vende e quem compra da história da civilização."

A palavra "Kodak" apareceu na mensagem dele. E não por acaso.

Um ex-dirigente da entidade, que ocupou cargo de diretoria na ABF e por isso mesmo conhece as entranhas institucionais do evento melhor do que a maioria, foi mais direto ainda. Ele relembrou que anos atrás havia proposto, dentro da própria diretoria, uma aproximação com o modelo americano de feiras, mais simples, mais econômico, mais funcional. "Um banner, uma mesa e três cadeiras", ele descreveu, evocando o formato utilizado pela International Franchise Association nos Estados Unidos, país que inventou o franchising moderno e que, curiosamente, nunca precisou de stands monumentais com iluminação cenográfica para fazê-lo funcionar. A proposta foi rejeitada, e ele foi, segundo seu próprio relato, convidado a se calar.

Essa anedota institucional revela algo estrutural: durante anos, o modelo da Expo ABF foi defendido não apenas por sua eficácia comercial, mas porque ele era, também, a principal fonte de receita da entidade que o organiza. Isso criou um incentivo perverso, onde a sustentabilidade financeira da ABF ficou dependente da manutenção de um formato que o mercado, gradualmente, estava deixando de necessitar na mesma intensidade.

Mas seria simplista, e intelectualmente desonesto, atribuir o encolhimento da feira apenas a um modelo de negócio institucional ultrapassado. A realidade é mais complexa, e os próprios participantes dos grupos que acompanhei foram cuidadosos em mapear a multiplicidade de fatores.

Houve fatores conjunturais inegáveis. A Seleção Brasileira jogava durante a Copa do Mundo, e o primeiro dia da feira coincidiu exatamente com um jogo do Brasil, o que, em qualquer contexto, esvazia qualquer evento que concorra com o futebol no calendário nacional. A coincidência com as Festas Juninas no Nordeste foi outro elemento apontado por vários especialistas. Um profissional com atuação concentrada na região afirmou que "Festa Junina é o segundo Natal do Nordeste", e um ex-diretor regional da ABF com mais de doze anos consecutivos no cargo no Norte e Nordeste confirmou que festas como a de Campina Grande geram demandas de operação comparáveis ao Natal, mobilizando empreendedores e equipes inteiras que simplesmente não teriam como viajar a São Paulo naquele período. Marcar a principal feira de franchising do país numa semana que concentra as maiores festas populares de quatro estados nordestinos, que representam juntos parcela relevante do consumo nacional, não é neutralidade estratégica. É, no mínimo, descuido geográfico.

Há, ainda, o peso do cenário macroeconômico. Juros estruturalmente elevados, com a taxa Selic operando em patamares que tornam o custo do capital um obstáculo concreto ao empreendedorismo, comprimetem a equação de retorno sobre investimento de qualquer franquia que dependa de financiamento para captação do investimento inicial. Um diretor de expansão com histórico de comercializar mais de quinhentas operações em dois anos foi preciso ao descrever o que isso significa na prática: o percentual de ROI aliado ao tempo de retorno do investimento, quando medido contra o custo de capital vigente, produz uma equação "duvidosa e extremamente inibidora". Não é que o negócio deixou de ser bom. É que o custo de oportunidade do capital nunca esteve tão alto, e candidatos racionais percebem isso.

Existe ainda o hábito, curiosamente resistente, de apontar para as empresas que democratizaram o acesso à expansão de negócios como as grandes culpadas pelo que a feira se tornou. As chamadas "aceleradoras", as plataformas de formatação mais acessíveis, os modelos que baratearam processos antes reservados a consultorias de alto custo, todos foram colocados no banco dos réus por uma parcela do mercado que prefere enxergar neles o problema, em vez de reconhecê-los como consequência inevitável de um processo de evolução que não pede autorização para acontecer. É uma tentação compreensível e, ao mesmo tempo, profundamente equivocada. Mercados que se democratizam não retrocedem. Tecnologias que reduzem custos não desaparecem por decreto corporativo. E setores que insistem em defender prerrogativas históricas contra a lógica da evolução não estão protegendo a qualidade, estão apenas adiando o inevitável. Os verdadeiros dinossauros desse debate não são as empresas que tornaram a expansão mais acessível. São aqueles que ainda acreditam que o modelo antigo pode ser restaurado por exclusão dos novos entrantes. Esses sim estão em extinção, e a Expo ABF 2026 foi mais um dado a confirmar essa trajetória.

Todos esses fatores são reais. Todos contribuem para explicar a edição de 2026. E todos, paradoxalmente, são periféricos ao fenômeno central.

Porque o que está acontecendo com a Expo ABF não é um problema de data no calendário, nem de concorrência com o futebol, nem de taxa de juros, nem de aceleradoras oportunistas. Esses são ruídos que amplificam um sinal mais profundo. O sinal é este: a lógica que justificava a centralidade das feiras no modelo de expansão do franchising foi estruturalmente alterada pela digitalização da jornada de compra do candidato.

Durante décadas, a expansão de franquias foi construída sobre um modelo de informação assimétrica. A franqueadora detinha informações, sobre o negócio, sobre a operação, sobre os números, sobre a marca, que o candidato só conseguia acessar num evento físico, numa conversa presencial com um consultor, ou num processo formal de avaliação que começava, quase invariavelmente, com uma visita à feira. Quem controlava o acesso à informação controlava o processo de venda. A feira era o principal ponto de entrada nesse funil, e sua grandiosidade era, em parte, uma estratégia de persuasão: o candidato que entrava numa Expo ABF nos anos 2000 e via aquela concentração de marcas, equipes profissionais, material impresso de qualidade e estandes elaborados recebia um sinal implícito de solidez e escala que funcionava como validação do modelo.

Quando esse candidato chega ao estande, ele não está iniciando uma conversa. Está encerrando uma investigação. A visita à feira tornou-se, para o candidato moderno, menos um ponto de entrada e mais um ponto de validação, e às vezes de desengano, quando a realidade presencial não corresponde à expectativa construída digitalmente.

Um consultor com quinze anos dedicados ao franchising, autor de obra lançada durante a própria semana da feira, articulou isso com precisão cirúrgica: "A feira não deixou de ser estratégica. O papel dela é que mudou. Anos atrás, a feira muitas vezes era o início da jornada de compra de uma franquia. Hoje ela passou a ser um ponto dentro dessa jornada."

É uma distinção que parece sutil mas implica consequências radicais para o modelo de negócio inteiro do evento. Se a feira não é mais o ponto de entrada do funil, o critério de sucesso muda. Se o candidato chega mais qualificado mas em menor número, a métrica relevante deixa de ser volume de visitantes e passa a ser taxa de conversão e qualidade dos contatos. Se o evento não gera mais o "gatilho emocional" que justificava o investimento de um estande de quinhentos mil reais, o ROI começa a ser questionado, e os questionamentos foram diretos: um diretor de expansão que comercializou mais de quinhentas operações em dois anos afirmou que investiu, em estratégias de expansão digital, valores menores do que uma única participação na ABF com grande stand, obtendo resultados superiores.

É nesse ponto que o Franchising 4.0 deixa de ser tese e torna-se descrição de uma realidade em curso.

O conceito que venho desenvolvendo desde 2020 parte de uma observação histórica: o franchising, como modelo, passou por três grandes ondas de transformação. A primeira foi a sistematização do próprio modelo nos anos 1950 e 1960, quando o franchising moderno emergiu nos Estados Unidos com a padronização de operações, manuais e contratos. A segunda foi a industrialização da expansão nos anos 1980 e 1990, quando o modelo se internacionalizou e criou as estruturas de suporte a redes com centenas e milhares de unidades. A terceira foi a digitalização básica dos anos 2000 e 2010, quando CRMs, intranets corporativas e plataformas de e-learning começaram a substituir processos em papel.

O Franchising 4.0 é a quarta onda, e ela é qualitativamente diferente das anteriores porque não se trata apenas de digitalizar processos existentes, mas de reconstruir a lógica inteira sobre a qual o modelo opera.

Num ecossistema de Franchising 4.0, a expansão deixa de ser uma atividade predominantemente comercial e torna-se um processo contínuo de construção de autoridade. Franqueadoras que compreendem isso não esperam a feira anual para gerar candidatos. Elas constroem comunidades, produzem conteúdo, desenvolvem programas de relacionamento com franqueados atuais que funcionam como embaixadores digitais, utilizam algoritmos para qualificar oportunidades antes mesmo da primeira ligação. Marketing, vendas, tecnologia, dados e inteligência artificial deixam de ser departamentos separados e passam a formar um único sistema integrado onde cada ação retroalimenta as outras.

Um profissional com dezesseis anos vendendo franquias formulou o que talvez seja o mais provocador dos diagnósticos que ouvi nesta semana: "Se você não está gerando leads com IA, está atrasado. E pelo que converso com franqueadores, ainda não estão olhando para isso." Ele foi além: o candidato moderno pode criar, com ferramentas de inteligência artificial disponíveis, um modelo de negócio operacionalmente semelhante ao de uma franquia sem adquirir a franquia. Não é que a IA vai matar o franchising. É que ela democratizou o acesso ao conhecimento operacional que antes era o principal ativo de diferenciação de uma rede formatada. O que o franqueador ainda tem a oferecer que a IA não pode replicar sozinha? Essa é a pergunta que o Franchising 4.0 força a responder.

A resposta, para quem está pensando com clareza, é: pertencimento. Comunidade. Reputação construída ao longo do tempo. Suporte humano qualificado. Uma rede de pares que atravessa dificuldades juntos. Ou seja, exatamente os ativos que menos aparecem nos estandes da Expo ABF e que mais importam para o candidato do presente.

O crescimento de academias, franquias autônomas e vending machines na feira deste ano não foi acidente. Foi sinal. Esses formatos de negócio têm em comum uma característica que os torna especialmente adequados ao momento: operam com estruturas enxutas, margens previsíveis, dependência mínima de mão de obra especializada, e integração natural com tecnologia de gestão e automação. São, em certa medida, a encarnação física de um franchising que aprendeu a operar no ambiente digital sem abrir mão da presença física.

Ao mesmo tempo, a presença crescente de fornecedores de tecnologia, e a ausência sentida de startups e soluções de inteligência artificial no espaço da feira, revelam uma tensão fundamental: o setor sabe que precisa se transformar, mas ainda não encontrou o formato físico que traduza essa transformação de modo convincente para o público. A pergunta que circulou entre expositores e visitantes mais atentos foi direta: por que não existe um aplicativo com inteligência artificial para direcionar candidatos conforme perfil de investimento, segmento ou localização dos estandes? Onde estavam as startups? As soluções que mostram para onde o franchising está caminhando?

Um executivo do setor, com vocabulário de quem observa o mercado com distância crítica, enunciou o que pode ser o diagnóstico mais preciso da edição 2026: "Sinto falta de uma feira que provoque o futuro do setor. Que traga mais benchmarking internacional, cases de mercados mais maduros, novas tecnologias, modelos emergentes de operação, inteligência artificial aplicada ao franchising, novas formas de comercialização e de relacionamento entre franqueador e franqueado. Hoje, em muitos aspectos, ainda vemos um grande aglomerado de marcas expondo seus negócios."

A analogia com a NRF, a National Retail Federation, evento americano que se tornou referência mundial por traduzir tendências de comportamento de consumo em aprendizados práticos para varejistas, apareceu diversas vezes nas conversas. A aspiração não é de imitação. É de maturidade. Um setor que representa mais de 1,8 milhão de empregos diretos e opera em quase 4.000 municípios merece um evento que esteja à altura de sua complexidade e de seu papel na economia nacional.

Existe, no entanto, um perigo nessa conversa que precisa ser nomeado.

O que é mais difícil, e muito mais valioso, é distinguir o que na Expo ABF está envelhecendo mal do que nela ainda cumpre um papel insubstituível.

Porque a feira ainda cumpre papéis que nenhuma estratégia digital replica com a mesma eficácia. Ela cria um ambiente de imersão onde candidatos que estão quase decididos encontram o elemento emocional final que transforma intenção em ação. Ela concentra num único espaço uma diversidade de marcas que nenhuma plataforma digital consegue apresentar com o mesmo impacto sensorial. Ela é um ponto de encontro da comunidade do franchising, consultores, franqueadores, franqueados, fornecedores, imprensa especializada, reguladores, educadores, que mantém o tecido social do setor coeso de uma forma que grupos de WhatsApp, por mais ativos que sejam, não conseguem substituir.

O problema não é que a feira existe. O problema é que ela ainda não encontrou como evoluir para refletir o setor que ela deveria representar.

Uma empresária do setor, fundadora de uma plataforma alternativa de conexão entre marcas e candidatos, capturou com clareza a armadilha institucional em que o evento se encontra: "Me lembro que tivemos esse mesmo debate ano passado, falamos as mesmas coisas, e o que sinto é que parece que só nós estamos preocupados. Não vejo nenhum movimento da Associação." É o problema clássico de qualquer instituição estabelecida que tem interesse financeiro na manutenção do formato atual: o incentivo para mudar é difuso e de médio prazo; o incentivo para preservar é concreto e imediato.

Há seis anos, quando comecei a sistematizar o conceito de Franchising 4.0, a questão que me movia não era tecnológica. Era uma questão sobre a natureza do valor no franchising. O que uma rede de franquias, na essência, oferece ao candidato que investe? Durante décadas, a resposta era: um sistema operacional testado, uma marca reconhecida, e o direito de beneficiar-se do know-how acumulado por quem abriu o caminho antes.

Essa resposta ainda é verdadeira. Mas deixou de ser suficiente.

O Franchising 4.0 adiciona uma camada que não existia antes: a capacidade de construir, em tempo real, uma inteligência coletiva sobre a operação. De usar dados de centenas ou milhares de unidades para antecipar problemas individuais antes que eles aconteçam. De personalizar o suporte ao franqueado com base em sua performance real e não em visitas de campo trimestrais. De criar comunidades de franqueados que não dependam da boa vontade da franqueadora para trocar experiências, porque a franqueadora inteligente do século XXI entende que uma comunidade de franqueados poderosa é um ativo competitivo, não uma ameaça.

O candidato que chega à Expo ABF em 2026, mais bem informado, mais exigente, menos impressionável com o espetáculo do estande, está procurando exatamente isso. Ele quer evidências de que a franqueadora que está considerando já cruzou a linha para o Franchising 4.0. Quer ver dados reais de performance de franqueados. Quer entender como a rede usa tecnologia para proteger a margem do franqueado. Quer saber se existe uma comunidade ativa que ele pode acessar antes de assinar o contrato. Quer, em suma, o oposto do que um stand bonito comunica: quer substância antes de forma.

E esse candidato, raro, qualificado, e por isso mais valioso, é exatamente o tipo de pessoa que os expositores de 2026 disseram encontrar nos corredores do Expo Center Norte. Menos em quantidade. Mais em qualidade.

A grande transformação, portanto, não está acontecendo contra a Expo ABF. Está acontecendo ao redor dela.

Enquanto a feira permanece ancorada num formato que nasceu para um mercado de informação escassa, o mercado real de franchising já opera num ambiente de informação abundante e inteligência distribuída. Enquanto o debate institucional gira em torno de metros quadrados, preço de stands e data no calendário, as franqueadoras mais avançadas já construíram máquinas de expansão que operam 365 dias por ano, qualificam candidatos com algoritmos, constroem relacionamentos com leads ao longo de meses antes de qualquer interação humana, e fecham contratos sem depender de nenhum evento físico específico.

A Expo ABF não vai desaparecer. Assim como não desapareceram as livrarias físicas depois do e-commerce, nem as agências bancárias depois do internet banking, nem as lojas de departamento depois do varejo online. Mas todas essas instituições passaram por uma redefinição dolorosa de seu papel, e aquelas que sobreviveram bem foram as que entenderam que não se tratava de competir com o digital, mas de oferecer algo que o digital, por definição, não consegue entregar.

Para a Expo ABF, isso significa deixar de ser um marketplace de marcas e tornar-se uma experiência imersiva de comunidade. Significa criar formatos onde candidatos não apenas encontram marcas, mas experimentam operações reais, interagem com franqueados ativos, têm acesso a dados comparativos confiáveis, participam de conteúdo que os torna mais aptos a tomar decisões de qualidade. Significa, talvez, ser menor em escala mas maior em densidade de valor por metro quadrado e por lead gerado.

Uma voz do setor formulou a pergunta certa nos últimos dias de conversa nos grupos: por que não montar um coletivo que construa uma proposta e a leve à ABF como força representativa? É uma pergunta que, se levada a sério, poderia catalizar exatamente o tipo de movimento que o setor precisa. Não um movimento contra a entidade, mas um movimento pela atualização do modelo que ela representa.

Quando caminhei pelos corredores da Expo ABF nesta edição, o que me marcou não foram os stands que estavam lá. Foram os espaços que estavam vazios.

Espaços onde marcas que participaram durante vinte anos simplesmente não apareceram. Espaços convertidos em telões de Copa. Espaços que, em edições anteriores, transbordavam de candidatos entusiasmados e hoje abrigavam apenas passantes descompromissados.

Esses espaços vazios não são o funeral do franchising brasileiro. São o parto de algo novo, ainda sem nome completo, ainda sem formato definitivo, mas já com características reconhecíveis para quem tem olhos calibrados para enxergar o que está nascendo antes de ganhar visibilidade de massa.

O franchising que está nascendo não precisa de feiras para existir. Precisa de marcas que constroem autoridade todos os dias, de franqueadoras que entendem que seu ativo mais precioso é a comunidade de franqueados que as representam, de plataformas de inteligência que transformam dados operacionais em vantagem competitiva real, de candidatos que chegam ao processo de compra mais educados e, por isso, mais comprometidos com o sucesso da operação que estão adquirindo.

Esse franchising é o Franchising 4.0 que venho descrevendo desde 2020. Não como profecia, mas como observação de movimentos que já estavam em curso e que a Expo ABF 2026 tornou impossível ignorar.

E essa assimetria, para quem sabe ler o mercado além das aparências, é a melhor notícia que o setor poderia receber. Porque significa que o modelo é mais robusto do que o evento que o celebra. E que o próximo capítulo da história do franchising brasileiro será escrito não dentro do Expo Center Norte, mas nos sistemas, nas comunidades, nas plataformas e nas decisões cotidianas de franqueadores que entenderam, antes dos outros, que o jogo mudou de tabuleiro.

Quem perceber isso primeiro não apenas venderá mais franquias. Ajudará a construir o setor que merecemos ter.

Franchising 4.0

Sua análise coincide com muito do que pensei por lá mas que talvez não conseguisse expressar em palavras. De nada adianta brigarmos com a evolução. Ela sempre chega sem pedir passagem. Quem sobrevive são os mais antenados, aqueles que vão percebendo os movimentos diferentes com o jogo em andamento. Parabéns, Lucien, pelo artigo 💪

Feira menor, leads mais qualificados e custos altos. Você tem total razão em sua análise Lucien Newton. O modelo precisa ser ajustado pra uma realidade que se iniciou anteontem e muitos persistem em não admitir pois estão presos a um modelo claudicante. Parabéns por ser um daqueles que lançam luz sobre o sistema.

A sensação de que "a feira encolheu" é o sintoma claro de um formato que ainda opera com a mentalidade dos anos 90. Enquanto todos os outros canais de aquisição, marketing e expansão se atualizaram de forma brutal na última década (principalmente pós pandemia), o modelo tradicional de exposição em pavilhões gigantescos continua insistindo nas mesmas dinâmicas do século passado. Se não houver uma disrupção urgente na experiência, na entrega de valor e no formato de conexão entre marcas e investidores, esse modelo não se sustentará por muitos anos.

O franchising mudou, o comportamento do investidor mudou, e as feiras precisam acompanhar esse ritmo para não virarem apenas um evento de nostalgia corporativa. Abraços e sucesso.

Boa leitura Lucien!

A Feira notoriamente encolheu bastante. O Franchising está em mudança constante, e agora as mudanças chegaram nesse evento. Uma "expo", com estandes lindos e gigantes, chamativos talvez já não caiba no mesmo formato que anos anteriores no momento atual do franchising no Brasil.

A pessoa que procura uma franquia hoje é diferente, quer falar de negócios e talvez não seja mais impactado por pegar sacolas ou brindes ou ser abordado no corredor. Ele já vai na Feira com sua pesquisa feita e mesmo que encontre lá coisas que ainda não tinha pesquisado, quer sentar com calma e conversar com alguém da franqueadora e naquele ambiente de "festa" da expo isso fica dicífil.

Momento bom para a associação repensar formatos!

abs meu amigo!

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