O Brasil das franquias
No segundo trimestre de 2025, o setor de franquias do Brasil apresentou um desempenho notável, desafiando um cenário macroeconômico complexo. Impulsionado por consumo resiliente e estratégias inovadoras de expansão, o franchising nacional faturou R$ 69,9 bilhões, um crescimento nominal de 14,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse avanço veio acompanhado da abertura de 7.449 novas operações de franquia no país, elevando o total para cerca de 200,6 mil unidades franqueadas em funcionamento. Além disso, o setor manteve seu papel de grande empregador: 1,745 milhão de empregos diretos foram gerados pelas redes de franquias no trimestre, evidenciando sua importância socioeconômica. Os números reforçam a pujança de um modelo de negócios que, mesmo sob juros elevados, dólar volátil e mudanças no consumo, continua a crescer acima da economia nacional e a se espalhar pelos quatro cantos do país.
Com 200,6 mil operações e alta de 14,2%, o franchising se consolida como motor da economia real.
O robusto desempenho do franchising ocorreu em meio a uma conjuntura econômica de contrastes no Brasil e no mundo. No panorama internacional, as maiores economias mostraram sinais mistos: nos Estados Unidos, a atividade começa a arrefecer sob juros altos, levando o Federal Reserve a cogitar cortes de taxa ainda este ano; a China acelera com estímulos monetários e fiscais; enquanto isso, a Europa patina, com a Zona do Euro à beira da estagnação e a Alemanha enfrentando concorrência asiática e choques de energia. Esse contexto global favoreceu economias emergentes como o Brasil, sobretudo pela expectativa de alívio nos juros americanos que reduziu a pressão sobre o câmbio. De fato, o real valorizou-se intensamente no primeiro semestre, mantendo o dólar em patamar comportado na casa de R$ 5,60–5,70. Essa estabilidade cambial, mesmo diante de atritos comerciais – como tarifas impostas pelos EUA a produtos brasileiros – contribuiu para conter custos de insumos e importados, beneficiando diversos ramos de franquias que dependem de matérias-primas ou equipamentos cotados em dólar.
No front doméstico, a economia brasileira deu sinais de resiliência, apesar da política monetária restritiva. A taxa básica de juros (Selic) permaneceu em 15% ao ano, um nível historicamente elevado, encarecendo crédito e desacelerando investimentos produtivos. Setores sensíveis a financiamento, como indústria e construção, arrefeceram, e a confiança empresarial sofreu abalos pela dificuldade de acesso a capital barato. Ainda assim, a inflação se manteve sob controle, com o IPCA caminhando para fechar o ano abaixo de 5%, próximo à meta oficial, graças ao rigor monetário e à desaceleração econômica. O grande contrapeso positivo veio do mercado de trabalho: a taxa de desemprego caiu a 5,8% no segundo trimestre de 2025, o menor nível desde o início da série histórica da PNAD Contínua em 2012. Em outras palavras, a proporção de brasileiros ocupados atingiu recordes, elevando a massa salarial e sustentando o consumo das famílias mesmo com juros altos. Esse ambiente de inflação moderada, renda em alta e emprego robusto configurou uma base de consumidores ativa, que se refletiu diretamente no caixa das franquias de norte a sul do Brasil. Não por acaso, o PIB doméstico ainda cresceu modestos ~0,5% no segundo trimestre, surpreendendo positivamente expectativas, e abriu caminho para que o Banco Central sinalizasse possíveis cortes de juros no fim do ano – um alento adicional para investimentos e para o setor de franquias, que já vislumbra crédito mais acessível em 2026.
Franchising em alta: crescimento de dois dígitos
Mesmo nesse contexto de altos e baixos, o franchising brasileiro confirmou sua capacidade de adaptação e crescimento acima da média. O salto de 14,2% na receita do segundo trimestre não apenas superou com folga a inflação do período, como também acelerou frente ao desempenho do início do ano – no primeiro trimestre, a expansão havia sido de 8,9%. Parte desse incremento extraordinário no 2º tri pode ser creditada a fatores sazonais: em 2025, a Páscoa (tradicional motor de vendas para diversas redes) caiu em abril, dentro do segundo trimestre, ao contrário de 2024, quando ocorreu em março. A realocação da Páscoa para o 2º trimestre de 2025 impulsionou as vendas de franquias de alimentação, especialmente aquelas focadas em chocolates e confeitos, contribuindo significativamente para o crescimento geral. Contudo, para além do efeito calendário, observa-se um fortalecimento orgânico do consumo e da eficiência das operações franqueadas. Muitas redes reportaram aumento de ticket médio e maior valor agregado nos produtos vendidos, sinal de consumidores dispostos a gastar mais em busca de qualidade e experiência diferenciada. Em paralelo, as franquias lograram incrementar produtividade e presença de mercado sem inchar excessivamente a base de unidades – prova disso é que enquanto o faturamento subiu dois dígitos, o número de operações cresceu de forma mais moderada (~4% a.a.), indicando ganhos de desempenho nas unidades existentes. Assim, as vendas por unidade franqueada tiveram um avanço real, reflexo de estratégias de melhoria operacional, uso de tecnologia e acertos no mix de produtos/serviços.
Desempenho do franchising brasileiro no 2º trimestre de 2025. O setor faturou R$ 69,9 bilhões no período (alta nominal de 14,2% sobre 2024) e alcançou 200,6 mil unidades em operação. Gráfico à esquerda: evolução do faturamento trimestral de 2021 a 2025; ao centro: faturamento acumulado no 1º semestre de cada ano; à direita: segmentos com maior crescimento percentual no trimestre (destaque para Alimentação, Entretenimento e Limpeza).
Do ponto de vista estrutural, o segundo trimestre também confirmou a solidez financeira das redes franqueadas. Com a inflação sob controle, uma parcela considerável desse crescimento de 14,2% foi crescimento real, representando mais vendas em volume e não apenas preços mais altos. Isso é encorajador para investidores: indica que as franquias conseguiram atrair mais clientes e transações, e não apenas repassar custos inflacionários. Também sugere que o consumidor brasileiro – sustentado pelo emprego – continua a prestigiar as franquias, mesmo com juros altos reduzindo a renda disponível de muitas famílias via crédito. Houve, claro, desafios: a margem de lucro de algumas operações segue pressionada pelos custos financeiros e por uma carga tributária pesada, e certos segmentos enfrentam mudança nos hábitos de consumo. Ainda assim, o balanço geral é positivo. “O franchising brasileiro atingiu um patamar de maturidade que combina crescimento acelerado com qualidade de gestão. Esse equilíbrio confirma a força do setor como uma das mais importantes engrenagens de negócios do país.” avaliou Leonardo Castelo, presidente do Ecossistema 300 Franchising, ao comentar os resultados. Segundo Castelo, o bom desempenho do franchising decorreu da combinação de fatores macroeconômicos favoráveis com a diversificação de formatos pelas redes, o que garantiu expansão mesmo sob juros elevados. “O que garantiu a expansão do franchising não foi apenas o consumo resiliente, mas a capacidade das redes de se reinventarem. A combinação entre fundamentos macro estáveis e formatos inovadores fez toda a diferença para manter o setor em trajetória de alta”, destacou o executivo em entrevista sobre o levantamento trimestral. Em suma, o franchising mostrou-se anticíclico até certo ponto, preenchendo lacunas de demanda e se beneficiando de uma preferência do público por marcas e serviços de confiança em tempos incertos.
Desempenho setorial: do chocolate gourmet ao lazer tecnológico
Os números agregados do franchising brasileiro escondem realidades bem distintas entre os segmentos que compõem o setor. No 2º trimestre de 2025, praticamente todos os ramos de atividade franqueada registraram crescimento de faturamento, mas alguns despontaram muito acima da média, impulsionados por tendências específicas de mercado:
- Alimentação – Comercialização e Distribuição: O segmento de alimentos voltados ao varejo (chocolaterias, docerias, conveniências, etc.) foi o grande campeão de crescimento, com expansão de 44% nas vendas sobre o mesmo trimestre do ano anterior. Isso se deveu em boa parte ao fator Páscoa, já mencionado – a data impulsionou sobretudo as franquias de chocolates finos e presentes gourmet, cuja demanda estava represada e migrou para produtos de maior valor agregado. Redes de confeitaria e presentes observaram picos de venda no período. Mas além da sazonalidade, há uma mudança estrutural favorecendo esse nicho: o consumidor tem buscado experiências mais sofisticadas também em produtos alimentícios, elevando o tíquete médio de chocolates “premium” e cafés especiais. Adicionalmente, modelos emergentes como mercados autônomos (lojas sem atendentes) e lojas de conveniência 24h entraram em consolidação e expansão, levando franquias de alimentação a novos pontos de venda e canais. O avanço dessas iniciativas – algumas baseadas em vending machines inteligentes ou pagamento via app – expande o alcance das redes alimentícias para além das lojas tradicionais, atingindo condomínios, empresas e outros locais estratégicos.
- Entretenimento e Lazer: Após um biênio de forte recuperação pós-pandemia, o segmento de entretenimento e lazer continuou em alta, crescendo 15,7% em faturamento anual no 2º tri. O público brasileiro voltou a frequentar parques, academias de jogos, experiências indoor e eventos, e as franquias do setor souberam capitalizar essa demanda reprimida. Observou-se forte adoção de tecnologias digitais e imersivas nas operações de lazer: desde realidade virtual e aumentada em parques temáticos indoor, até simuladores e atrações high-tech em shopping centers, tudo para enriquecer a experiência do cliente. Essa combinação de entretenimento físico com elementos virtuais atraiu especialmente o público jovem e famílias em busca de novidades. Modelos como parques de trampolim e arenas de e-sports (gaming) se popularizaram e viraram franquias de rápido crescimento. Porém, houve um ajuste sazonal: comparado ao primeiro trimestre de 2025, o segmento de lazer teve leve queda (-4,4%), explicada pelo fato de o verão e férias escolares (presentes no 1º tri) tradicionalmente aquecerem mais o movimento de lazer do que o período de abril-junho. Nada que preocupe no longo prazo – a tendência anual continua positiva e o setor se reinventa, com franquias de festas infantis, brinquedotecas tecnológicas e turismo local despontando como nichos promissores para o restante do ano.
- Serviços de Limpeza e Conservação: O ramo de limpeza, conservação e facilidades surpreendeu com um crescimento de 15,4% no trimestre, mostrando que mesmo segmentos menos glamourosos podem brilhar no franchising. Aqui se destaca uma mudança comportamental do consumidor brasileiro: há uma diminuição na contratação de empregados domésticos e diaristas, reflexo de fatores econômicos e culturais, o que levou muitas famílias e empresas a buscarem serviços especializados terceirizados de limpeza, lavanderia e manutenção. Franquias de lavanderias self-service e passadoria, por exemplo, têm experimentado alta procura, pois oferecem comodidade e custo-benefício frente à contratação de pessoal fixo. Da mesma forma, empresas têm optado por facilities terceirizados (limpeza corporativa, jardinagem, etc.), alimentando redes especializadas. Adicionalmente, tecnologias de autoatendimento e automação chegaram forte a este segmento: há franquias de lavanderias automáticas 24h, aplicativos de contratação de faxina on-demand e equipamentos de limpeza autônomos sendo disponibilizados via modelos de franquia. A queda na disponibilidade de mão de obra doméstica e a busca por eficiência impulsionaram essas soluções. O resultado é que franquias de limpeza, antes vistas como negócio de nicho, ganham escala e se tornam um dos pilares de crescimento recente do setor.
- Saúde, Beleza e Bem-Estar: Mantendo a trajetória positiva já observada nos últimos anos, as redes de saúde, beleza e bem-estar continuaram expandindo em ritmo acelerado – em torno de 12% a 15% de crescimento no trimestre, segundo dados setoriais divulgados pela ABF. Com a pandemia ficando para trás, os consumidores voltaram a buscar ativamente cuidados pessoais, tratamentos estéticos e qualidade de vida, e as franquias corresponderam ampliando portfólio e presença. Clínicas de estética e depilação tiveram aumento de clientes, impulsionadas por novos métodos e planos de assinatura. Franquias de cuidados com a saúde, como academias, estúdios de pilates/yoga e clínicas odontológicas, também reportaram forte demanda, sustentada pela maior preocupação da população com bem-estar preventivo. Houve aporte de inovações, como uso de realidade virtual em academias (para acompanhamento de treinos) e telemedicina em clínicas populares, melhorando a experiência e acesso. O segmento de beleza, por sua vez, diversificou ofertas – salões de beleza express, esmalterias e barbearias premium proliferaram via franquia nas capitais e interior. Todo esse movimento se reflete nos números: a franquia brasileira de saúde e beleza é hoje referência internacional, com marcas exportando conceitos e ganhando prêmios. No balanço trimestral, o setor foi responsável por uma fatia importante do faturamento total e permanece entre os líderes de expansão, sinalizando que a busca por saúde e estética de qualidade é uma tendência duradoura no Brasil.
Vale notar que nenhum segmento relevante apresentou queda no faturamento anual, indicando crescimento setorial disseminado. Segmentos tradicionais como alimentação – food service (restaurantes, lanchonetes) também cresceram acima dos dois dígitos, acompanhando a retomada do consumo fora do lar e a inovação nos cardápios e formatos (incluindo cozinhas virtuais para delivery). Setores como moda, embora mais estáveis, mostraram recuperação com coleções focadas em conforto e e-commerce integrado às lojas físicas. Turismo e Hotelaria, altamente impactados pela pandemia, consolidaram sua volta: redes de agências de viagens, intercâmbio e hospedagem tiveram desempenho sólido, alavancados pelo dólar estável e pela demanda reprimida por viagens. Até mesmo nichos emergentes – de serviços automotivos a educação e cursos profissionalizantes – cresceram, refletindo que o franchising brasileiro abrange uma economia diversificada. Essa diversidade é um trunfo: risco setorial espalhado. Se a construção civil esfria, franquias de reforma e reparos domésticos sentem menos porque outros segmentos compensam; se o varejo de moda desacelera, franquias de logística podem crescer com e-commerce; e assim por diante. O resultado no 2º trimestre foi um crescimento robusto e equilibrado, construído sobre vários pilares de negócio.
Expansão regional: interiorização e novos polos de crescimento
Geograficamente, o franchising brasileiro continua ganhando capilaridade e reduzindo distâncias regionais. Historicamente concentrado nos grandes centros do Sudeste, o setor de franquias nos últimos anos avançou para o interior e para outras regiões com vigor, e os dados de 2025 confirmam essa tendência de descentralização. Segundo a ABF, as redes franqueadas já estão presentes em 69% dos mais de 5 mil municípios. Isso equivale a quase 3.900 cidades contando com pelo menos uma unidade de franquia operando – uma penetração impressionante, fruto da estratégia deliberada das marcas de alcançar mercados antes inexplorados. Há uma década, menos da metade das cidades do país tinham franquias; hoje, praticamente 2 em cada 3 municípios contam com alguma operação franqueada, seja uma pequena loja, quiosque ou mesmo um franqueado home office.
A interiorização das franquias fica evidente quando se analisa a distribuição das novas unidades. Estima-se que quase metade das franquias abertas recentemente situam-se fora das capitais, em cidades médias e pequenas. De fato, 50% das localidades que mais tiveram crescimento no número de franquias não são capitais estaduais. Esses dados apontam um deslocamento do eixo de expansão: se antes Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e outras metrópoles concentravam quase todo o crescimento, agora municípios do interior despontam como motores de desenvolvimento franqueado. Há razões claras para isso. Primeiro, muitos mercados metropolitanos já estão saturados em certos segmentos, levando redes a buscarem oportunidades onde a concorrência é menor e há demanda reprimida – o interior se encaixa perfeitamente nesse perfil. Segundo, houve nos últimos anos um aumento do poder de compra em cidades médias (beneficiadas por agronegócio, indústria local ou turismo), criando um público consumidor ávido por marcas e serviços padrão capital. Terceiro, os próprios governos estaduais e municipais começaram a incentivar a interiorização de investimentos, incluindo franquias, com programas de desenvolvimento e melhoria de infraestrutura.
Regiões como o Centro-Oeste e o Nordeste têm se beneficiado dessa nova onda de expansão. No Nordeste, por exemplo, estados como Pernambuco, Ceará e Bahia vêm registrando crescimento acima da média nacional no número de franquias. Pernambuco, em particular, desponta como um terreno fértil para novos empreendedores franqueados, apoiado pelo aumento do consumo local e iniciativas de capacitação. O faturamento das franquias pernambucanas chegou a R$ 1,8 bilhão em 2024 e continua em elevação, com mais de 5,4 mil unidades ativas no estado. Cidades nordestinas de porte médio – de Caruaru (PE) a Feira de Santana (BA) – tornaram-se destinos frequentes para redes de alimentação, moda e serviços, que encontram nelas mercados em crescimento e menor competição que nas capitais. Já no Centro-Oeste, impulsionado pelo agronegócio e pela interiorização da renda, o franchising também se espalha. Municípios do interior de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul viram multiplicar o número de franquias nos setores de alimentação e serviços automotivos, por exemplo, atendendo uma clientela que antes precisava recorrer às capitais para consumir certas marcas.
Entretanto, o Sudeste permanece como a locomotiva do franchising nacional – ainda concentra cerca de 55% das unidades franqueadas e uma fatia ligeiramente maior do faturamento total do setor, segundo dados recentes. O estado de São Paulo continua liderando em números absolutos, abrigando a sede de grande parte das redes e o maior contingente de operações. A pujança econômica paulista, com seu mercado consumidor de mais de 45 milhões de habitantes, dá às franquias um campo vasto para prosperar. Mas outros estados sudestinos vêm ganhando protagonismo próprio. Minas Gerais, por exemplo, já responde por aproximadamente 9% do faturamento e das unidades de franquias do país, tendo se consolidado como o quarto maior mercado de franquias do Brasil. O estado movimentou R$ 23,6 bilhões em 2023 em franquias, crescendo 12,7% naquele ano, bem acima da média nacional. No primeiro trimestre de 2025, o franchising mineiro continuou forte, faturando R$ 5,6 bilhões (alta de 7,1% a/a) e representando 8,5% do faturamento nacional do setor no período. Minas conta hoje com mais de 18 mil unidades franqueadas, tendo expandido 4% em quantidade de operações em um ano, e emprega diretamente cerca de 154 mil pessoas em franquias A performance de Minas Gerais ilustra o potencial dos mercados fora do eixo Rio-SP: em 2024, enquanto o setor cresceu ~13% no país, Minas alcançou 21% de crescimento, e a expectativa é novamente superar a média em 2025. Fatores como um ambiente de negócios melhorando (o governo mineiro firmou um acordo pioneiro com a ABF para fomentar franquias no estado) e a chegada de grandes aceleradoras de franquias em Belo Horizonte criaram um círculo virtuoso para as redes na região.
No Rio de Janeiro, segundo maior mercado consumidor, o franchising também avança, embora enfrente desafios particulares (como altos custos imobiliários na capital). Há forte presença de franquias no interior fluminense – cidades como Niterói, Campos e Volta Redonda têm visto incremento de operações, especialmente em alimentação e educação. Estados do Sul, por sua vez, mantêm-se entre os mais dinâmicos: Paraná e Rio Grande do Sul figuram entre os cinco estados com maior número de unidades franqueadas, impulsionados por economias locais diversificadas e renda per capita elevada. Cidades interioranas do Sul (como Maringá-PR, Caxias do Sul-RS) tornaram-se hubs regionais de franchising, atraindo marcas nacionais e até internacionais.
Uma curiosidade é que franquias agora alcançam até regiões remotas, graças à combinação de formatos alternativos e melhoria logística. Hoje é possível encontrar franquias operando na Amazônia Legal e no extremo Norte em capitais como Manaus, Belém, Boa Vista e Rio Branco, e gradualmente penetrando municípios do interior amazônico com modelos adaptados. Redes de educação e serviços essenciais (saúde, odontologia) puxam essa expansão nas fronteiras, levando estrutura onde às vezes o poder público não consegue suprir plenamente. A presença de franquias traz padronização de qualidade e formalização a esses mercados locais, gerando empregos e tributos.
Em suma, o retrato regional do franchising brasileiro em 2025 é o de um mosaico cada vez mais preenchido: do Oiapoque ao Chuí, do litoral ao sertão, há franquias em operação. Essa capilaridade amplia o alcance das marcas e as protege de concentrações de risco. Quando determinada economia local enfrenta dificuldades (por exemplo, queda na receita do petróleo no RJ ou seca no agronegócio do NE), outras regiões em melhor fase compensam. A diversificação geográfica, aliada à setorial, faz do franchising um motor robusto e relativamente resiliente. E para investidores, abre-se um leque amplo de possibilidades: não é mais preciso focar apenas nos bairros nobres das capitais – há oportunidades estratégicas em municípios menores e regiões periféricas, muitas vezes com concorrência menor, custos operacionais mais baixos e consumidores ávidos por novidades. Marcas que se anteciparem e fincarem bandeira nessas praças tendem a colher os frutos da lealdade local e da falta de alternativas equivalentes. Isso explica por que tantos franqueadores estão direcionando seus planos de expansão para cidades do interior e zonas metropolitanas fora do eixo central.
Modelos inovadores e tecnologias transformando o setor
Por trás da notável expansão do franchising rumo a novos mercados está a inovação nos modelos de negócio e o uso intensivo de tecnologia. As franquias de 2025 já não se limitam ao formato tradicional de loja de rua ou shopping – a palavra de ordem agora é flexibilidade de formato para atender diferentes públicos e praças. Nesse sentido, observou-se o avanço das microfranquias e de modelos mais enxutos, como quiosques, unidades móveis e franquias digitais, fenômeno que tem facilitado a entrada das redes em municípios menores e regiões periféricas, onde um investimento de grande porte seria inviável.
Os quiosques de franquia, por exemplo, tornaram-se onipresentes em centros de compras e galerias de todo país. Redes de alimentação, cosméticos, bijuterias e serviços optaram por quiosques modulares, de custo mais baixo e implantação rápida, para testar mercados e ocupar espaços ociosos. Já as unidades móveis – de food trucks gourmets a vans de serviços (pet shop móvel, estética móvel) – criaram novas frentes de receita, levando a franquia até o cliente. Em vez de esperar que o público venha até a loja, muitas redes vão até condomínios, eventos ou bairros distantes por meio de unidades sobre rodas, ampliando a capilaridade sem investimento fixo alto. Essa mobilidade tem sido crucial para cobrir regiões periféricas das grandes cidades, onde às vezes a segurança ou a falta de pontos comerciais dificultava a presença franqueada. Agora, um caminhão-loja ou van de serviços estaciona periodicamente nesses locais, atendendo consumidores da periferia com a conveniência e a marca já conhecidas.
Outro vetor importante são as franquias digitais. Aqui entram modelos em que o franqueado não opera uma loja física tradicional, mas sim um negócio digital: pode ser uma agência de marketing digital franqueada, uma plataforma de e-commerce local, ou ainda modelos home based em que o franqueado vende via redes sociais ou marketplace sob a chancela da marca. Esses formatos virtuais ganharam muita força durante a pandemia e provaram sua viabilidade, continuando a crescer no pós-pandemia. Para cidades que ainda não comportam uma loja física de determinada marca, a opção de um franqueado digital (que atenda aquela região remotamente) tem sido utilizada como estratégia de entrada. Por exemplo, escolas de inglês podem ter franquias 100% online para atender alunos de localidades onde não há sede física; consultorias e serviços de saúde mental adotam teleatendimento franqueado, e assim por diante.
A tecnologia, aliás, não transformou apenas o canal de venda, mas também a experiência dentro das franquias físicas. Conforme mencionado, franquias de entretenimento incorporaram realidade virtual e aumentada para enriquecer seus parques e atrações. No varejo, redes de moda e decoração utilizam espelhos inteligentes e provadores virtuais para que clientes “experimentem” produtos via AR (realidade aumentada). Franquias imobiliárias investem em tours virtuais 3D dos imóveis, reduzindo o ciclo de venda e enchendo menos o tanque do carro. Restaurantes franqueados implementaram menus digitais interativos e até realidade aumentada que mostra um prato em 3D sobre a mesa antes do pedido – um gimmick tecnológico que aumenta o engajamento e o gasto médio. Esse movimento de tecnologias imersivas e interativas visa atender a um consumidor cada vez mais conectado e exigente, que valoriza experiências únicas. É um casamento interessante: as franquias fornecem a padronização e confiabilidade, enquanto a tecnologia adiciona personalização e encantamento.
No campo operacional, a adoção de soluções de inteligência artificial (IA) e big data pelas redes franqueadas também se intensificou. Grandes franquias de varejo e alimentação estão usando IA para previsão de demanda e gestão de estoque, reduzindo rupturas e desperdícios. Ferramentas de análise de dados permitem aos franqueadores identificar tendências de consumo localizadas e orientar franqueados sobre mix de produtos ideal para cada praça. Na relação franqueador-franqueado, plataformas digitais integradas melhoraram a comunicação e treinamento: muitos lançaram universidades corporativas online, webinars e apps de suporte ao franqueado, criando um ecossistema de conhecimento que profissionaliza ainda mais a gestão na ponta. Uma pesquisa recente destacou que 88% dos franqueadores brasileiros adotaram algum tipo de tecnologia de realidade virtual, inteligência artificial ou automação em 2024-25 para otimizar suas operações ou melhorar o atendimento – um indicativo claro de que inovar não é mais opcional, é mandatário para se manter competitivo.
Em termos de oferta de produtos/serviços, a inovação trouxe novos nichos de franquia inimagináveis anos atrás. Conforme observado na última ABF Expo, surgiram redes franqueadas em segmentos tão diversos quanto estações de recarga de veículos elétricos, clínicas de energia solar, franquias de análise de dados e até lojas autônomas de vinho. O leque de oportunidades se ampliou tremendamente. Negócios criativos brotam em resposta a demandas emergentes: franquias de chocolates sem açúcar para atender públicos fitness e diabéticos, franquias de recursos de multas de trânsito auxiliando motoristas, empresas franqueadas de economia de água e sustentabilidade para surfar a onda ESG, ateliês de luteria (reparo de instrumentos musicais) replicados via franquia para atender músicos em várias cidades – entre outros exemplos que outrora seriam considerados exóticos. Esse dinamismo inovador reforça a imagem do Brasil como um celeiro de modelos de negócio criativos. A cada nicho atendido por uma startup local, logo há potencial de formatação em franquia para escalar aquela ideia nacionalmente. Assim, o franchising torna-se veículo de difusão de inovação, permitindo que invenções regionais ganhem projeção e capilaridade.
Em síntese, formatos alternativos e tecnologia são os habilitadores da expansão atual. A combinação de quiosques, micro-unidades, franquias digitais e mobile, somada ao uso de sistemas inteligentes e recursos imersivos, abriu portas para as redes entrarem onde antes não conseguiriam e atenderem o cliente de formas antes impensadas. Essa transformação digital-estrutural do franchising brasileiro está em curso há alguns anos, mas ganhou tração máxima pós-pandemia. Para os empreendedores e investidores, isso significa modelos de investimento mais acessíveis (uma microfranquia exige capital muito menor que uma loja padrão) e negócios mais adaptáveis às mudanças do mercado. Significa também que a concorrência aumenta – se antes apenas empresas grandes podiam se franquear, hoje até pequenos negócios de nicho conseguem, via formatos enxutos – mas a concorrência vem com uma expansão do bolo total, ou seja, mais oportunidades de negócio no agregado.
A força dos multifranqueados
Um dos sinais mais claros da maturidade do franchising brasileiro é o crescimento do perfil de multifranqueado – aquele empreendedor que opera mais de uma unidade de franquia, seja da mesma rede (multiunidade) ou de redes diferentes (multimarca). O que antes era exceção hoje é regra: quase 90% das redes franqueadoras do país já contam com pelo menos um multifranqueado em seu quadro de franqueados. Há apenas dois anos, essa presença era de 83%; agora ultrapassa 87% e segue aumentando. Ou seja, em 9 a cada 10 marcas de franquia, há franqueados controlando múltiplas operações, uma evidência de que o sistema atingiu um patamar profissional em que empreendedores bem-sucedidos expandem seus negócios dentro do próprio franchising.
Segundo pesquisa da ABF, cerca de 21,6% dos franqueados brasileiros já possuem mais de uma unidade (ou mais de uma marca). Esse percentual mais que dobrou na última década e, de acordo com matéria setorial, chegaria a aproximadamente metade dos franqueados se forem consideradas operações conjuntas com sócios e unidades abertas recentemente. De toda forma, é inegável que a figura do “franqueado pessoa física com uma lojinha” cedeu espaço à de empresários franqueados com portfólio de negócios. Há casos emblemáticos de multifranqueados que se tornaram grupos econômicos: redes de lojas de um mesmo dono, operando dezenas de franquias de marcas diversas em diferentes estados – verdadeiros conglomerados regionais de varejo e serviços.
Mas por que cresce esse perfil no setor de franchising? Os motivos são tanto do lado do franqueado quanto do franqueador. Para o franqueado, virar multifranqueado é um caminho natural de expansão dos negócios, rentabilizando o ativo mais valioso que ele adquiriu: o know-how operacional da franquia. Uma vez que o empreendedor domina a gestão de uma unidade e tem confiança na marca, abrir outra unidade – ou investir numa nova franquia – é uma forma de alavancar seus ganhos diluindo custos. Como explicou Tom Moreira Leite, presidente da ABF, “com mais unidades, o franqueado consegue diluir despesas e capturar mais valor com menor risco, pois já domina o negócio”. Ou seja, o segundo ponto é menos custoso em tempo de aprendizagem do que o primeiro. Além disso, ser multifranqueado permite diversificar mercados e equilibrar fluxos de caixa: se uma unidade vai mal, as outras compensam; se um ramo enfrenta sazonalidade, outro pode estar em alta. Muitos franqueados, por exemplo, investem em marcas de segmentos distintos – combinando uma franquia de alimentação com outra de serviços, ou uma de varejo de moda com outra de educação – exatamente para não “colocar todos os ovos na mesma cesta” e aproveitar diferentes tendências de consumo.
Do lado do franqueador, ter franqueados multiunidade traz também vantagens. Em geral, o multifranqueado é um parceiro mais capitalizado e experiente, capaz de acelerar o processo de expansão da rede ao assumir várias praças rapidamente. O franqueador economiza tempo e recursos de treinamento, pois o empreendedor já conhece bem o modelo. “Para nós, os multifranqueados representam não apenas escala, mas também maturidade de gestão. São parceiros que aceleram a expansão das redes porque já dominam a operação e sabem como replicar qualidade.” afirma Leonardo Castelo. Além disso, ele destaca que o multifranqueado tende a ter maior capacidade de gestão, profissionalizando mais a operação e exigindo também melhorias e suporte mais sofisticado da franqueadora – o que acaba elevando o nível de toda a rede. Não por acaso, muitas marcas adotaram nos últimos anos estratégias explícitas de estimular multifranqueados: oferecem condições especiais para franqueados atuais abrirem novas unidades, programas de fidelidade (royalties decrescentes por volume, por exemplo) e até priorizam candidatos com perfil investidor para franquias em regiões-chave. Algumas implementam clusters regionais – dando a um franqueado o direito de abrir várias unidades num território – ao invés de franquias isoladas por cidade.
Um dado interessante revelado pela ABF é que dentre os multifranqueados há dois perfis: os multimarca (possuem franquias de redes distintas) e os monomarca (várias unidades da mesma rede). E o grupo dos multimarca cresceu mais: entre 2022 e 2024, a proporção de multifranqueados multimarca subiu de 52% para 61% dentro do universo dos multifranqueados. Isso indica que é cada vez mais comum o empresário-franqueado montar um portfólio diversificado de marcas. À medida que novos segmentos e nichos surgem atrativos, esses investidores aproveitam oportunidades em diferentes mercados, tornando-se quase administradores de shopping centers pessoais – com unidades de alimentação, serviços e varejo sob seu guarda-chuva. Exemplos reais vão desde grupos que operam 30 hamburguerias de marcas diferentes, até empreendedores que combinam escolas de idiomas, clínicas de depilação e lojas de acessórios em seu mix. Essa tendência demonstra confiança no modelo de franquias e busca por diversificação de investimentos dentro do franchising.
A maior profissionalização e musculatura financeira desses multifranqueados é reflexo também do desenvolvimento do setor de franquias como um todo. Hoje existem consultorias especializadas, fundos de investimento e até bolsas de franquias ajudando franqueados a crescer e adquirir novas unidades. Em eventos do setor, painéis e workshops são dedicados a esse público avançado, cobrindo temas de gestão de múltiplos negócios, governança e sucessão. O resultado é que temos franqueados atuando quase como CEOs de mini corporações de franquias, gerenciando centenas de funcionários e faturamentos multimilionários, algo impensável duas décadas atrás quando a maioria dos franqueados era composta por pequenos comerciantes iniciantes.
É importante destacar que o movimento de multifranqueados traz desafios também: franqueadores precisam adaptar suporte para atender grupos mais complexos, e zelar para que a qualidade não caia em unidades de grandes operadores. Há casos de multifranqueados crescendo rápido demais e perdendo controle, ou privilegiando uma marca em detrimento de outra, o que requer diálogo constante com as franqueadoras envolvidas. Contudo, de modo geral, a ABF enxerga o fenômeno de forma positiva, pois sinaliza a confiança dos empreendedores no sistema de franquias e injeta capital e escala no setor. Para novos entrantes, isso significa que há caminhos distintos: ser um franqueado operador individual ou almejar se tornar um investidor multifranqueado. Ambos os perfis coexistem, mas a fatia dos multifranqueados tende a aumentar, especialmente conforme redes maduras buscam sucessores e encontram nesses grupos dispostos a assumir operações existentes.
Em resumo, o franchising brasileiro vive uma fase em que os franqueados crescem junto com as franquias. Essa simbiose fortalece todo o ecossistema: franquias mais capitalizadas expandem, franqueados ganham escala e profissionalização, consumidores encontram lojas melhor gerenciadas e com oferta ampliada. Como vetor de crescimento econômico, os multifranqueados desempenham papel similar ao de investidores institucionais em outros setores – consolidando e levando eficiência – mas com a vantagem de manter o espírito empreendedor local. E essa característica híbrida do franchising (escala + empreendedorismo local) é talvez seu maior trunfo para continuar relevante nas próximas décadas.
Oportunidades estratégicas e perspectivas futuras
Olhando adiante, diversos sinais apontam que o franchising continuará sendo um vetor relevante de crescimento econômico no Brasil e uma referência internacional em inovação e capilaridade. As projeções para o restante de 2025 e 2026 são otimistas, embora realistas quanto aos desafios. A expectativa de queda da taxa Selic ao longo de 2025 deve trazer um fôlego importantíssimo: juros mais baixos significam crédito mais acessível para empreendedores financiarem novas unidades e para consumidores parcelarem compras, o que tende a impulsionar vendas especialmente em segmentos de valor mais alto. A combinação de inflação controlada e juros cadentes poderá liberar investimentos represados – muitos candidatos a franquia adiaram a decisão em 2023-24 pelo custo financeiro, mas podem concretizá-la com um cenário de juros de um dígito possivelmente em 2026. Assim, espera-se uma nova onda de expansão de redes a partir do ano que vem, possivelmente acelerando o crescimento do número de unidades (que ficou em torno de 3-4% no último ano) para patamares mais robustos novamente.
Do lado do consumo, vários fatores jogam a favor da continuidade do bom desempenho. O mercado de trabalho deve se manter aquecido, ainda que o PIB não cresça tanto – a taxa de desemprego baixa e a criação de vagas formais projetada (mais de 1,5 milhão de novos empregos formais em 2025, segundo o Caged) servem de colchão para o consumo massificado. Com mais gente empregada e renda média subindo, a massa salarial em circulação aumenta, beneficiando sobretudo setores de varejo e serviços onde as franquias atuam. Além disso, mudanças comportamentais que ganharam tração na pandemia, como valorização do comércio de bairro, busca por conveniência e tendência ao “cuidar de si”, continuam impulsionando franquias de proximidade, delivery e saúde/beleza. Mesmo a população de renda mais baixa, que sofreu mais com a inflação alta de 2021-22, voltou a consumir alguns supérfluos e a frequentar estabelecimentos de franquias populares à medida que a inflação arrefeceu e programas sociais fortaleceram o poder de compra na base.
No cenário internacional, o Brasil desponta como mercado-alvo de investimentos em franquias e como exportador de conceitos. A estabilidade política relativa e o tamanho do mercado atraem olhares de redes estrangeiras – espera-se novas marcas internacionais entrando via master franquias nos próximos trimestres, diversificando ainda mais a oferta (algumas previstas nos ramos de alimentação “gourmet” e educação tech). Por outro lado, marcas brasileiras estão se internacionalizando como nunca: de redes de açaí abrindo lojas em Miami e Lisboa, a franquias de serviços automotivos e de odontologia ganhando espaço em países vizinhos e até na Europa, levando a expertise “made in Brazil” lá fora. Essa troca global enriquece o ecossistema local com novas práticas e eleva o patamar de exigência – bom para quem souber inovar, desafiador para quem ficar parado. Em termos de reconhecimento internacional, o Brasil já figura entre os maiores mercados de franquias do mundo (ao lado de EUA, China, Coreia do Sul e Japão) e é visto como case de sucesso em segmentos como alimentação e beleza, graças à criatividade e escala atingidas. A capilaridade territorial brasileira – ser capaz de distribuir redes por um país continental – é estudada por outros mercados emergentes como exemplo de logística e adaptação cultural.
Estratégias de expansão em novos nichos geográficos continuam no radar. Municípios menores (menos de 50 mil habitantes) e regiões metropolitanas periféricas ainda têm muito a oferecer. Estima-se que cerca de 31% dos municípios brasileiros seguem sem nenhuma franquia instalada – um território virgem que, embora composto em grande parte por cidades pequenas e de baixa renda, contém bolsões de oportunidade. Redes de microfranquias e negócios essenciais (farmácias, alimentos, conveniência) serão as primeiras a entrar nessas localidades, muitas vezes através de modelos híbridos (loja que combina vários serviços) ou parcerias com comerciantes locais. Há também um movimento de fomentar franquias em áreas urbanas de periferia nas grandes cidades, integrando-as a projetos de desenvolvimento local. Iniciativas de franquias sociais ou de impacto podem ganhar força, atendendo comunidades com serviços de educação, saúde e alimentação de maneira acessível, ao mesmo tempo inserindo empreendedores dessas comunidades na cadeia de franquias.
No médio prazo, alguns desafios permanecem no horizonte. A carga tributária e a burocracia no Brasil ainda são pontos de atenção – reformas nesse sentido poderiam destravar ainda mais o potencial do franchising, reduzindo custos e incertezas para expansão. A reforma tributária em discussão traz impactos ao consumo e ao setor de serviços que precisam ser monitorados: franquias de alimentação, por exemplo, estão atentas à unificação de impostos que pode aumentar alíquotas sobre restaurantes. Porém, o setor mostrou capacidade de adaptação antes e tende a fazê-lo de novo, repassando parte dos custos se necessário e ganhando em eficiência interna para segurar margens. Competição acirrada em alguns mercados urbanos já é realidade – shoppings saturados de operações semelhantes, boulevards com múltiplas franquias de mesmo segmento – e isso exigirá das redes maior diferenciação e inovação contínua para manter a preferência do consumidor. Felizmente, como vimos, a inovação tem sido um ponto forte recente, seja via tecnologia, novos produtos ou melhor atendimento.
Levando tudo em conta, o franchising brasileiro emerge da primeira metade de 2025 mais forte e confiante do que entrou. A conjunção de um macroambiente encaminhando para melhora (inflação sob controle, juros caindo, dólar estável) com um setor que aprendeu a se reinventar na adversidade (pós-pandemia) faz crer que os próximos anos serão de expansão sustentada. Franquias continuarão a ser vetores de formalização e crescimento econômico, espalhando oportunidades de negócio e geração de emprego por todo o território. Cada nova unidade inaugurada representa investimento, empregos locais e impostos gerados – um ciclo virtuoso que apoia o desenvolvimento regional. Não por acaso, governos e agências de fomento começam a ver as franquias como aliadas estratégicas para impulsionar economias locais, e parcerias público-privadas podem surgir para levar redes a regiões de interesse (como já visto em Minas Gerais).
Por fim, a capilaridade do franchising nacional – sua capacidade de alcançar mercados de forma organizada – e a inovação constante em formatos tornam o Brasil uma vitrine única. O sucesso de conceitos como quiosques autônomos, microfranquias de baixíssimo investimento e franquias híbridas (online/offline) coloca o país na fronteira da experimentação do modelo de franquias. Em conferências internacionais, é comum ouvir especialistas citarem o Brasil como referência em adaptabilidade do franchising a diferentes cenários econômicos e sociais. Se mantiver esse ritmo, o setor pode colher um crescimento expressivo também em termos reais, contribuindo de forma significativa para o PIB e para a modernização do varejo e dos serviços no país.
Em suma, o franchising 4.0 brasileiro – mais tecnológico, distribuído e estratégico – consolida-se como espinha dorsal do empreendedorismo moderno no Brasil. Investidores nacionais e estrangeiros atentam para as oportunidades que ele oferece; franqueadores inovam para conquistar mercados e consumidores diversificados; franqueados evoluem para gestores multiunidades experientes. Tudo isso indica que o franchising seguirá como protagonista do crescimento econômico, gerando riqueza, empregos e levando inovação a cada canto do Brasil, ao mesmo tempo em que reforça a reputação do país como um celeiro de ideias franqueáveis e negócios de sucesso em escala global. O desafio daqui em diante será sustentar esse sucesso – e, pelo que se vê no horizonte, o setor está mais do que preparado para fazê-lo.