O Franchising 4.0 acaba de ganhar um novo capítulo no Brasil. E ele fala mandarim.

O Brasil, conhecido mundialmente por sua diversidade cultural e gastronômica, está prestes a experimentar uma nova e fascinante revolução impulsionada por duas gigantes chinesas: Mixue Ice Cream & Tea e Meituan, através da sua subsidiária Keeta. Essas empresas, originadas na pujante economia chinesa, chegam ao país trazendo modelos de negócio inovadores, estratégias agressivas e investimentos bilionários, prometendo transformar profundamente os setores de alimentação rápida e delivery.

Por Lucien Newton 5 min de leitura

A trajetória da Mixue é um conto de resiliência e visão empreendedora que começou humildemente em 1997, quando Zhang Hongchao, então com apenas 22 anos, abriu uma modesta barraca de sobremesas geladas na província chinesa de Henan. Investindo apenas 3.000 yuans emprestados de sua avó, Zhang encontrou dificuldades nos primeiros anos, mas logo percebeu uma oportunidade ao posicionar seu negócio próximo a escolas e universidades. A aposta em preços baixos, com produtos acessíveis que custam em média cerca de 6 iuanes (aproximadamente R$ 4,70), logo se mostrou acertada, e o pequeno empreendimento transformou-se numa verdadeira febre entre os jovens chineses.

A ascensão meteórica da Mixue ganhou força definitiva a partir de 2007, quando Zhang adotou o modelo de franquias, uma estratégia que permitiu uma expansão extremamente veloz e uma cobertura geográfica massiva. Hoje, a empresa administra mais de 45.000 unidades espalhadas por países como China, Singapura, Tailândia e Indonésia, superando marcas globais estabelecidas como Starbucks e McDonald's em número de lojas. Este sucesso não é casualidade, mas resultado de uma cadeia logística altamente eficiente, que permite custos baixos tanto para franqueados quanto para consumidores finais, criando um ciclo virtuoso de consumo e expansão.

Ao anunciar sua entrada no Brasil, a Mixue revelou planos ambiciosos, incluindo um investimento inicial de R$ 3,2 bilhões, visando abrir centenas de lojas nos próximos anos e gerar cerca de 25 mil empregos diretos e indiretos até 2030. Este investimento gigantesco é mais que um simples movimento econômico; é também um indicador claro do potencial que o mercado brasileiro representa para grandes players internacionais. A decisão de aportar recursos vultosos no Brasil evidencia a confiança da empresa no apetite crescente do consumidor local por novidades internacionais a preços competitivos, especialmente num contexto econômico em que os gastos conscientes são cada vez mais prioritários.

No entanto, Mixue não está sozinha nessa empreitada audaciosa. Quase simultaneamente, outra gigante chinesa, Meituan, anunciou sua entrada no mercado brasileiro por meio de sua marca internacional, Keeta. Fundada em 2010 por Wang Xing, um empreendedor visionário que já havia criado outras plataformas digitais bem-sucedidas na China, como a rede social Renren, a Meituan rapidamente se transformou numa das maiores empresas de tecnologia da Ásia, com atuação intensa em serviços de delivery, reservas em restaurantes, turismo e muito mais.

O modelo de negócios da Meituan é particularmente impressionante pela sua escala e eficácia tecnológica. Na China, a empresa realiza mais de 70 milhões de entregas diárias, controlando aproximadamente 70% do mercado local de delivery. Este domínio é resultado direto da implementação avançada de inteligência artificial, algoritmos de roteirização otimizados e uma infraestrutura robusta de entregadores autônomos e humanos. Com receita anual superior a US$ 30 bilhões, a Meituan figura consistentemente entre as maiores empresas do mundo em valor de mercado, destacando-se também pela sua capacidade de integrar múltiplos serviços em uma única plataforma digital.

Agora, sob a marca Keeta, a Meituan entra no Brasil prometendo investir R$ 5,6 bilhões ao longo de cinco anos, buscando revolucionar o competitivo mercado brasileiro de delivery, atualmente dominado pelo iFood, que controla cerca de 80% do segmento nacional. A entrada da Keeta no Brasil não é apenas uma simples expansão geográfica; representa uma verdadeira declaração de guerra comercial, com a empresa chinesa prometendo oferecer taxas mais atraentes aos restaurantes parceiros, pagamentos mais rápidos e, crucialmente, entregas mais eficientes e rápidas.

Este cenário configura-se como uma verdadeira batalha de titãs tecnológicos, onde Keeta, com toda sua expertise adquirida na China e nos mercados internacionais, promete desafiar frontalmente o quase-monopólio do iFood. O consumidor brasileiro, acostumado a lidar com atrasos, taxas elevadas e qualidade variável, pode agora vislumbrar uma nova era, marcada por concorrência acirrada, melhor qualidade nos serviços e potencial redução de custos, benefícios diretos decorrentes dessa disputa comercial.

A estratégia das duas empresas chinesas, embora com focos diferentes—Mixue na expansão física de lojas de sobremesas e bebidas acessíveis, e Keeta na revolução digital das entregas—tem em comum uma compreensão sofisticada das necessidades dos consumidores modernos. Ambas investem pesadamente em inovação tecnológica e eficiência operacional, buscando oferecer produtos e serviços que equilibram preço e qualidade. Para o mercado brasileiro, esta chegada é particularmente oportuna, ocorrendo em um momento em que consumidores buscam experiências novas, práticas e econômicas.

A adaptação das operações da Mixue e da Keeta ao contexto brasileiro será um fator crucial para o sucesso destas gigantes chinesas. Considerando as especificidades culturais, hábitos de consumo e particularidades logísticas do país, ambas as empresas terão de demonstrar agilidade e flexibilidade na execução de suas estratégias. Para a Mixue, o desafio maior será entender e responder rapidamente às preferências regionais de sabores, hábitos alimentares e comportamentais. Já para a Keeta, a chave estará em superar as barreiras logísticas e concorrenciais estabelecidas por plataformas já consolidadas.

Este momento não é apenas uma nova fase de investimentos estrangeiros no Brasil, mas sim uma verdadeira transformação do cenário competitivo no país, potencialmente elevando os padrões e pressionando players locais a melhorarem suas práticas comerciais e operacionais. A chegada dessas empresas chinesas não deve ser vista como uma simples ameaça, mas como uma oportunidade valiosa de aprendizado e crescimento para todos os envolvidos no mercado brasileiro. “A chegada dos chineses reforça uma tendência global: o modelo de franquias no delivery é estratégico para escalar em cidades médias e pequenas. É assim que Meituan/Keeta faz na China e, que a Delivery Much já faz no Brasil desde 2015. O delivery no Brasil vai se ressignificar com a vinda de quem entende esse modelo em larga escala!” segundo Pedro Judacheski, Fundador e CEO da Delivery Much.

Os próximos anos serão decisivos para avaliar o impacto real dessas iniciativas. Uma coisa, entretanto, já parece certa: o dragão chinês, representado por Mixue e Meituan/Keeta, chegou ao Brasil para ficar, e promete não apenas disputar espaço, mas redefinir as regras do jogo.

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