Ortodoxo travestido de não ortodoxo

Existe um paradoxo quase irônico no coração do franchising contemporâneo: aquilo que funciona, aquilo que gera resultados consistentes, aquilo que traduz a realidade de consumo e as dinâmicas econômicas atuais, ainda é visto como “não ortodoxo”. O que deveria ser tratado como ortodoxia, como o manual de sobrevivência, como o ponto de partida natural, ainda é percebido como ruptura, como excesso, como risco. Estamos diante de um setor que, em sua maioria, ainda confunde tradição com imobilismo, herança com paralisia, estabilidade com resistência ao inevitável. E é nesse contexto que se desenha o Franchising 4.0, não como um exercício futurista ou uma abstração, mas como o modelo que realmente funciona, que realmente se sustenta, que realmente consegue entregar a escala necessária para que o sistema de franquias não seja apenas uma fórmula burocrática, mas um motor vivo de desenvolvimento econômico e social.

Por Lucien Newton 6 min de leitura

A contradição fica ainda mais evidente quando se observa o comportamento das instituições representativas do setor – câmaras, associações e federações – em diferentes países. O que se vê, de forma quase unânime, é um discurso que valoriza a manutenção de práticas cristalizadas, como se a segurança de um contrato rígido ou de um manual escrito duas décadas atrás pudesse proteger marcas em um mercado que se move em segundos. Há uma defesa da “ortodoxia” que, na verdade, já não é ortodoxia: é apenas apego ao passado. E tudo aquilo que desafia essa inércia, que ousa acelerar, que propõe adaptação, que coloca dados, tecnologia e metodologias ágeis no centro da expansão, é carimbado como “não ortodoxo”.

O curioso é que o franchising, em sua essência, nasceu como um modelo disruptivo. Quando se popularizou, foi a tradução institucionalizada da expansão em rede: a promessa de escalar negócios por meio da replicação controlada, multiplicando unidades de forma mais rápida do que seria possível com capital próprio. Foi, portanto, um método ousado, uma ruptura em relação à expansão tradicional. Mas, com o tempo, o que nasceu como ousadia se tornou conservadorismo. O franchising cristalizou-se em procedimentos e liturgias que, embora tenham feito sentido no século XX, já não conversam com o consumidor, o investidor e o mundo do século XXI.

Esse é o pano de fundo em que o Franchising 4.0 se impõe. Ele não é uma invenção, não é uma alternativa exótica, não é um desvio. Ele é, na realidade, a tradução mais fiel do que o franchising precisa ser para funcionar no presente e no futuro. Só que, por enfrentar resistências culturais, institucionais e psicológicas, ainda carrega o estigma de ser o “não ortodoxo”.

O consumidor de hoje não se parece em nada com o consumidor de 20 ou 30 anos atrás. Ele é impaciente, ansioso, informado, conectado, com poder de decisão fragmentado entre telas, recomendações digitais e comunidades online. Ele não espera, não aceita barreiras, não se contenta com processos engessados. Vive num ambiente de excesso de informação, onde a atenção se tornou o recurso mais escasso. E, diante disso, ainda existem redes de franquias que acreditam que basta entregar um manual físico, um treinamento estático e um contrato duro para garantir escala e padronização. Essa desconexão entre o perfil do consumidor e as práticas das redes é o que explica o fracasso silencioso de muitas marcas que nunca chegam à escala necessária para se justificar como franquias.

O Franchising 4.0, por outro lado, entende esse contexto. Ele não é uma “teoria”, mas uma prática que parte de metodologias ágeis, de um olhar para dados em tempo real, de um modelo de expansão que privilegia escala desde o primeiro dia. É um franchising que não se apoia apenas na intuição ou na tradição, mas na inteligência de dados, na automação, na leitura das mudanças de comportamento do consumidor. É um modelo que vê a franqueadora não apenas como fornecedora de manuais, mas como aceleradora de negócios, capaz de transformar unidades em células vivas, conectadas em rede, todas abastecidas por informação, suporte e estratégias em tempo real.

Em países como o Brasil, os Estados Unidos ou mesmo em mercados europeus, o que se vê é um padrão semelhante. Apesar das diferenças culturais e econômicas, as associações de franchising ainda são majoritariamente conservadoras. Defendem, em nome da “seriedade” e da “tradição”, práticas que já não respondem à realidade. O mesmo se percebe nos discursos institucionais, que tratam de forma quase litúrgica elementos como a Circular de Oferta de Franquia, os manuais de operação ou os treinamentos padronizados. Nada disso, em si, é irrelevante; pelo contrário, continuam sendo peças importantes do jogo. Mas quando são tratados como se fossem suficientes por si mesmos, como se bastassem para sustentar redes em um mundo hiperacelerado, revelam-se anacrônicos.

Na Europa, onde se esperaria um nível maior de maturidade, o quadro não é muito diferente. As federações reforçam a ideia de que as regras estabelecidas são o caminho seguro, quando, na prática, esse caminho já não garante competitividade. Nos Estados Unidos, ainda que exista maior abertura para inovação em setores específicos, como alimentação ou educação, a narrativa oficial das associações continua sendo marcada por um discurso de estabilidade, de “boas práticas” que, em muitos casos, se transformaram em amarras.

É nesse cenário que o Franchising 4.0 aparece como uma espécie de outsider. Ele é o modelo que realmente entrega escala, mas que, por parecer “rápido demais”, “moderno demais” ou “flexível demais”, é visto como arriscado. O que deveria ser o normal é tratado como exceção. O que deveria ser o manual básico de sobrevivência é tratado como desvio não ortodoxo.

A questão central, portanto, não é se o Franchising 4.0 funciona. Ele funciona — e os casos de redes que cresceram de forma acelerada, sustentada e relevante o provam. A questão é quando o setor como um todo deixará de tratar esse modelo como um “alternativo” para assumir que ele é o único caminho viável. Até lá, haverá um abismo entre o discurso institucional e a prática de mercado, entre as redes que crescem e as que desaparecem, entre o que é chamado de ortodoxia e o que realmente funciona.

O medo de romper com a tradição explica parte dessa resistência. Há uma espécie de apego psicológico à liturgia do franchising “clássico”. Muitos empreendedores, franqueados e dirigentes preferem acreditar que repetir o que foi feito no passado ainda é suficiente, porque isso oferece conforto, previsibilidade, sensação de segurança. Mas essa segurança é ilusória. O mercado não espera. O consumidor não espera. A concorrência global não espera. Enquanto redes discutem se devem ou não se abrir ao novo, outras já estão fazendo, já estão ocupando espaços, já estão escalando.

E, nesse sentido, a ortodoxia de hoje — essa ortodoxia anacrônica defendida por associações e setores conservadores — é, na verdade, a maior heresia contra o franchising. Porque ela preserva a forma e mata a essência. Preserva a liturgia, mas compromete a sobrevivência. Mantém viva a imagem do franchising, mas deixa morrer o modelo como motor de desenvolvimento.

O Franchising 4.0 é visto como não ortodoxo, mas deveria ser o contrário: é o único ortodoxo legítimo, porque é o único que funciona. Ele é ortodoxo porque está em linha com o consumidor, com a tecnologia, com as dinâmicas econômicas, com o tempo presente. Ele é ortodoxo porque se ancora em dados, em práticas validadas, em processos de aceleração que fazem sentido no século XXI. O que é “não ortodoxo”, na realidade, é insistir em práticas do passado como se fossem suficientes.

O futuro do franchising, no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, não está na preservação de ritos que já não se justificam, mas na adoção dessa nova ortodoxia. Um futuro em que “não ortodoxo” não será mais um rótulo, mas uma lembrança de como o setor, por tanto tempo, resistiu ao inevitável.

📍 Se o franchising quer continuar sendo relevante, precisa entender que o Franchising 4.0 não é opção, é necessidade. Ele é o padrão que deveria ser ortodoxo, mas que ainda é visto como não ortodoxo porque o mercado prefere acreditar que mudanças radicais não são possíveis. O tempo, porém, provará o contrário. O que hoje soa como ousadia amanhã será apenas chamado de franquia bem-sucedida.

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