O Fim do Jogo de Empurrar a Culpa

Por trás de toda unidade que não performa existe uma pergunta que quase ninguém faz em voz alta: que parte do problema é minha, e que parte é do relacionamento entre franqueador e franqueado.

Por Lucien Newton 19 min de leitura

Temas Governança de redes de franquias

Quem é responsável quando uma unidade não performa?

A cultura de empurrar a culpa custa mais do que qualquer disputa contratual. A Lei 13.966 de 2019 já define a franquia como relação empresarial, sem vínculo de consumo nem trabalhista. O que falta não é cláusula, é uma rede que sustente conversa difícil com dado na mesa em vez de retórica defensiva.

A cena se repete há mais de vinte anos, em setores diferentes, com sotaques diferentes, e eu já perdi a conta de quantas vezes assisti a ela ao vivo. Uma unidade não está performando. Numa sala de reunião, ou mais frequentemente numa chamada de vídeo tensa às nove da manhã, o franqueado abre a fala dizendo que a franqueadora precisa resolver aquilo. O problema está no marketing que não gera lead de qualidade, na tabela de preço que ficou fora da realidade local, no suporte que nunca aparece quando é preciso. Do outro lado da tela, alguém da sede escuta com uma paciência que já parece treinada e devolve, sem alterar o tom, que o problema é execução. Outras unidades com o mesmo apoio, o mesmo preço, o mesmo material de marketing, estão indo bem. Os dois lados chegam à reunião com print de conversa, planilha, gráfico. Os dois têm uma versão da história que se sustenta sozinha, até você ouvir a versão do outro.

O que mais me incomoda nessa cena, depois de vê-la se repetir centenas de vezes em franquias de alimentação, saúde, educação, estética, serviço, é que os dois lados costumam estar certos. E os dois lados costumam estar errados ao mesmo tempo. Existe uma explicação pronta esperando em cada esquina dessa relação. Quando a venda cai, a culpa é do marketing. Quando o marketing entrega lead e a conversão não vem, a culpa passa a ser a qualidade do lead. Quando a operação decepciona, o franqueado diz que faltou suporte de campo. Quando o franqueado reclama do suporte, a franqueadora responde que ele não segue o padrão que assinou. Quando a margem encolhe, aponta-se o fornecedor homologado. Quando a rede inteira perde competitividade, aponta-se o franqueado que não executa. No fim dessa cadeia, quase todo mundo sai da sala com um argumento pronto. Raramente alguém sai com resultado.

Chamo essa dinâmica de terceirização da responsabilidade, e defendo há algum tempo, em conversa com sócios, franqueados e executivos de rede, que o setor precisa entrar numa fase diferente da que viveu nas últimas três décadas. Chamo essa fase de Franchising 4.0. E faço questão de dizer, logo de saída, que ela não começa com inteligência artificial, aplicativo de gestão ou painel de indicador em tempo real. Ela começa com maturidade. A tecnologia vem depois, como ferramenta de uma relação que decidiu parar de fugir de si mesma.

O que a lei define como responsabilidade de cada lado?

O franchising brasileiro fechou 2025 superando R$ 301 bilhões em faturamento, com mais de 202 mil unidades em operação, 3.297 redes cadastradas e algo próximo de 1,76 milhão de empregos diretos. São números de um setor que virou peça relevante da economia nacional, capilarizado de um jeito que dificilmente uma rede própria replicaria com a mesma velocidade. Só que quanto maior esse mercado fica, menos ele suporta ser administrado com os instrumentos informais que funcionavam quando as redes eram pequenas e a proximidade pessoal resolvia praticamente tudo. Durante muito tempo, ser uma boa franqueadora significou estar por perto. O dono da marca conhecia cada franqueado pelo nome, sabia da vida pessoal de cada um, pegava o telefone quando algo saía do trilho, aparecia na loja sem aviso para resolver ali mesmo, no balcão. Isso funciona com dez unidades. Funciona, com esforço visível, com cinquenta. Passa de cem, passa de mil pontos espalhados por dezenas de estados, e aquilo que se sustentava pela proximidade física precisa passar a se sustentar por processo, por dado, por governança, sob pena de a rede virar um conjunto de feudos que só compartilham o letreiro. Não basta mais repetir a palavra parceria em convenção. É preciso decidir, com uma clareza que incomoda porque exige compromisso por escrito, o que cada parte precisa entregar, em que prazo, com qual padrão, sob qual consequência.

A própria lei já resolveu boa parte dessa ambiguidade, embora o mercado ainda trate isso como novidade. A Lei nº 13.966, de 2019, define a franquia como relação contratual em que o franqueador autoriza o uso de marca, métodos e sistema de negócio mediante remuneração, sem que isso configure relação de consumo nem vínculo empregatício. Há uma mensagem densa escondida nessa definição jurídica. O franqueado continua empresário do começo ao fim. Investiu numa fórmula testada, comprou o direito de operar sob marca reconhecida, recebeu conhecimento acumulado por quem já errou antes dele, recebe treinamento, tecnologia, fornecedor homologado, inteligência competitiva que sozinho jamais construiria em tempo hábil. Mas em nenhum momento deixou de ser o responsável final pela própria empresa. Franquia reduz risco de abrir negócio do zero, é justamente isso que sustenta o modelo. Não elimina risco empresarial, que é inerente a qualquer CNPJ próprio, funcionário próprio, capital próprio investido. A Circular de Oferta de Franquia não é apólice contra prejuízo. Existe para reduzir assimetria de informação antes da decisão de investir, não para transformar faturamento projetado em faturamento garantido depois que a loja abre. E suporte, por mais robusto que seja, não substitui liderança local, gestão de gente, controle de custo, capacidade comercial, execução diária. Parece óbvio escrito assim. Deixa de parecer óbvio com uma velocidade impressionante quando o resultado não aparece e alguém precisa explicar por quê.

Onde está a responsabilidade da franqueadora?

Seria desonesto, porém, encerrar por aqui, apontando só para a responsabilidade do franqueado, porque existe um movimento simétrico do outro lado da mesa. Há franqueadora que adora invocar a independência empresarial do franqueado exatamente quando ele passa por dificuldade financeira. Você é empresário, dizem, a decisão foi sua. Correto, em tese. Só que essas mesmas franqueadoras esquecem essa independência com uma facilidade notável na hora de cobrar royalty em dia, contribuição ao fundo de propaganda, compra obrigatória de fornecedor homologado, cumprimento rigoroso de padrão definido unilateralmente pela sede. O franchising não sustenta essa assimetria por muito tempo, em que autonomia é lembrada para cobrar e esquecida para apoiar. A franqueadora também assumiu obrigação real ao colocar a marca no mercado como sistema replicável. Prometeu, ainda que implicitamente, transferência de know-how. Estruturou proposta de valor que vendeu como diferenciada. Escolheu fornecedor, desenvolveu produto, organizou suporte que cobra royalty justamente porque promete retorno superior ao que o franqueado alcançaria sozinho. E continua, ao longo de todo o contrato, tomando decisão que impacta direto a economia de cada unidade. Preço, mix, campanha, tecnologia obrigatória, território, expansão de unidade vizinha, promoção, presença em marketplace. Qualquer uma dessas decisões, mal calculada, destrói em poucos meses a rentabilidade de um franqueado que fez exatamente o que o manual mandou. Dizer que franqueado é empresário e ponto final também pode virar, bem articulado, uma forma sofisticada de a franqueadora terceirizar a própria responsabilidade.

Uma pesquisa da International Franchise Association com executivos de franqueadora trouxe um dado que costumo citar em quase toda conversa estratégica sobre relacionamento em rede. 42% desses executivos apontaram a economia da unidade, a saúde financeira concreta de cada loja, como o fator mais determinante para a qualidade da relação entre franqueador e franqueado. Não deveria surpreender ninguém que já operou dentro de uma rede, mas costuma ser tratado como detalhe secundário frente à discussão sobre evento e comunicação institucional. Relacionamento importa, convenção importa, comunicação importa. Mas há pouca coisa capaz de melhorar tão rápido o clima de uma rede inteira quanto franqueado ganhando dinheiro de forma consistente. E há pouca coisa capaz de deteriorar essa mesma relação com tanta velocidade quanto uma unidade que trabalha o dia inteiro, fatura razoavelmente bem no papel, e ainda assim não sobra retorno suficiente para justificar o esforço.

É por isso que insisto que o Franchising 4.0 precisa abandonar de vez a conversa superficial sobre faturamento bruto e entrar a fundo em unit economics. Não basta saber quanto uma unidade vendeu no mês. É preciso entender quanto sobra depois de pago tudo, quanto custa adquirir cada cliente novo, quanto pesa a ocupação do ponto, qual a produtividade real por colaborador, qual a margem líquida por categoria, qual o impacto de cada promoção sobre a rentabilidade final, quanto capital de giro aquela operação específica consome mês a mês, qual o payback real do investimento, e sobretudo, qual fatia desse resultado depende de decisão da franqueadora e qual fatia depende só da execução do franqueado. Sem essa resposta, toda reunião de performance vira disputa de opinião em que ganha quem argumenta melhor, não quem tem razão. Imagine duas unidades da mesma rede, formato idêntico, cidades de porte comparável, mesmo tempo de operação. A primeira converte 22% dos leads em venda fechada. A segunda converte 8%. As duas recebem a mesma campanha, o mesmo material, o mesmo treinamento de venda. Antes de acusar o marketing, existe uma pergunta objetiva a fazer primeiro, com dado na mesa: o que a unidade de 22% faz, na prática, que a de 8% simplesmente não faz? Agora inverta. De cinquenta unidades maduras da mesma rede, quarenta e duas apresentam deterioração simultânea de margem no mesmo trimestre. Ali é estatisticamente improvável que quarenta e dois franqueados tenham esquecido, ao mesmo tempo, como administrar um negócio que já dominavam. Muito provavelmente existe um problema sistêmico, de preço, de CMV, de fornecedor, de campanha mal calibrada, ou do próprio modelo operacional imposto pela sede. É essa a função do dado bem estruturado numa rede madura: separar o que é problema individual do que é problema estrutural. No franchising antigo, a discussão gira em torno de quem tem razão. No Franchising 4.0, a primeira pergunta deveria ser outra, mais simples e mais difícil de contornar: o que os números mostram, antes de qualquer discurso.

A literatura acadêmica trata dessa questão há mais tempo do que o mercado costuma reconhecer. Um estudo publicado no Journal of Business Research identificou que confiança e satisfação percebidas pelo franqueado estão diretamente ligadas à capacidade concreta da franqueadora de desempenhar bem seu papel funcional, sobretudo na qualidade e na frequência da comunicação. Outro, publicado no Journal of Small Business Management, chegou a conclusão complementar: a percepção de que a franqueadora cumpre bem funções centrais, como gestão estratégica da marca e controle de qualidade da rede, é o que mais influencia a confiabilidade que o franqueado constrói ao longo do tempo. Isso importa porque existe a tendência de tratar confiança como algo emocional, quase intangível, dependente de simpatia ou carisma de liderança. Não é isso que a evidência mostra. No franchising, confiança se constrói por repetição de comportamento observável ao longo de meses e anos. A franqueadora prometeu suporte, e entregou. Avisou uma mudança de preço com antecedência, e cumpriu o prazo. Errou numa campanha, reconheceu o erro em público e corrigiu a rota. O franqueado disse que executaria o plano de ação, e executou dentro do prazo. Informou seus números reais para o sistema da rede, sem maquiagem. Foi ao treinamento em vez de mandar alguém despreparado no seu lugar. Pagou a obrigação contratual em dia, mesmo em mês difícil. Confiança é consequência de comportamento previsível sustentado no tempo. Não de discurso bem construído em palco de convenção.

Autonomia do franqueado e apego do franqueador ao modelo

E aqui vale encarar de frente um ponto desconfortável. Alguns franqueados querem autonomia plena para fazer diferente do manual e querem dependência total para justificar resultado ruim. Querem ser tratados como empresário independente quando isso favorece a decisão, e como consumidor protegido quando algo não sai como esperado. Desejam usufruir da inteligência coletiva que a rede acumulou em anos de operação, mas resistem ao padrão que sustenta essa mesma inteligência. Questionam campanha, fornecedor, preço, sistema, treinamento. Questionar é saudável, franqueado não é soldado, e uma rede que não escuta quem está no balcão perde acesso a informação de mercado valiosa. Mas existe diferença enorme entre questionar para melhorar o sistema e questionar como estratégia para justificar a própria falta de execução. Conheço redes em que o mesmo plano de ação já foi apresentado cinco vezes, o treinamento está disponível, outras unidades comparáveis executam com sucesso mensurável, os indicadores da própria unidade mostram com precisão onde está o problema, e mesmo assim a conversa volta sempre ao mesmo lugar: o que a franqueadora vai fazer por mim desta vez. Talvez a pergunta mais honesta, naquele momento, fosse outra: o que você, especificamente, ainda não fez do que já foi combinado.

O erro inverso existe com uma frequência que o mercado prefere não discutir. Franqueador se apaixona pelo próprio modelo, o que é natural depois de anos construindo e defendendo aquele sistema, mas essa paixão vira ponto cego perigoso. Quando o franqueado aponta um problema real, a resposta automática de muita sede é presumir que ele não entendeu o espírito do franchising. Às vezes é isso mesmo. Outras vezes, com mais frequência do que gostaríamos de admitir, foi a franqueadora que parou de escutar de verdade há algum tempo. Quem está todo dia atrás do balcão percebe mudança de comportamento de consumo antes de qualquer relatório chegar à sede. Percebe quando um preço saiu da realidade, quando um produto parou de girar, quando a campanha nacional não converte naquele mercado local, quando o sistema dificulta mais do que ajuda no atendimento, quando o fornecedor homologado perdeu competitividade, quando um concorrente novo mudou a dinâmica do bairro. Rede que não constrói canal estruturado para captar esse sinal desperdiça o maior laboratório de mercado que tem à disposição, que são as próprias unidades espalhadas por dezenas de praças. A própria International Franchise Association recomenda comunicação frequente, aberta e genuinamente bilateral, e reconhece conselhos de franqueados, formalmente constituídos, como instrumento relevante para sistemas mais complexos. Escutar, porém, não é transferir o comando estratégico para uma assembleia permanente de opinião divergente. Franqueadora escuta com atenção genuína, analisa com rigor técnico, decide com base no que ouviu, explica publicamente o motivo, e quando é preciso, diz não com clareza. Governança de rede não é, e não deveria tentar ser, democracia direta em que toda voz individual pesa igual.

Há algo particular na natureza do franchising que vale examinar de perto. O contrato precisa ser robusto, tecnicamente bem construído, capaz de proteger os dois lados diante de cenário adverso. Ao mesmo tempo, quanto mais uma relação depende só do texto contratual para funcionar no dia a dia, pior tende a estar, na prática, a saúde dessa relação. Contrato existe porque é impossível prever tudo que vai acontecer ao longo de cinco, dez, vinte anos de parceria. Tecnologia muda, concorrente novo aparece, canal de venda se transforma, hábito de consumo se altera, estrutura de custo oscila, e as próprias pessoas nos cargos de liderança de cada lado mudam com o tempo. Um estudo publicado em 2026 sobre relação entre franqueador e franqueado chamou atenção para um efeito contraintuitivo à primeira vista, mas que faz sentido quando observado de perto: nível excessivamente alto de confiança e vínculo pessoal próximo demais entre as partes pode produzir uma espécie de cegueira relacional, reduzindo a capacidade de cada lado perceber com clareza o valor real que está sendo trocado naquela parceria. Não se trata de defender conflito permanente como método, nem de defender que amizade pessoal profunda substitui governança formal. Relação saudável combina confiança construída no tempo com clareza objetiva sobre papel, indicador e consequência, sem deixar a proximidade apagar a necessidade de avaliação técnica constante.

As duas listas que uma rede madura precisa responder

É exatamente aqui que começa, na prática, o Franchising 4.0. Uma rede madura precisa responder, sem retórica defensiva, duas listas de pergunta que raramente são feitas com essa clareza dentro da mesma sala. De um lado, se a marca segue entregando inovação real, se a proposta de valor segue competitiva frente ao que surgiu recentemente, se o modelo econômico da unidade padrão segue saudável ou já mostra desgaste estrutural, se o suporte resolve problema de verdade ou só registra protocolo, se há dado suficiente para identificar uma unidade em risco antes que o fechamento vire inevitável, se a campanha produz retorno mensurável, e o que concretamente está sendo feito para aumentar a rentabilidade média da rede. Do outro lado, se o modelo está sendo executado de forma integral ou só parcial, se o franqueado conhece a fundo a demonstração de resultado da própria empresa, se existe gestão ativa de gente na operação, se a conversão é acompanhada com regularidade, se há presença do proprietário no nível que o modelo exige, se o treinamento oferecido é de fato aproveitado, se o plano de ação combinado é executado no prazo, se existe o hábito de comparar a própria performance com a das melhores unidades da rede, e se, ao reclamar da franqueadora, o franqueado sustenta essa reclamação com evidência concreta em vez de frustração acumulada. E há uma última pergunta que vale igual para os dois lados, antes de qualquer discussão sobre quem errou primeiro: antes de apontar a responsabilidade do outro, eu cumpri integralmente a minha. Essa pergunta simples, aplicada com honestidade, resolveria uma quantidade impressionante dos conflitos que hoje consomem tempo, energia e dinheiro dentro de rede de franquia inteira.

Suporte se mede por quantidade de contato?

Durante muitos anos, boa parte das redes brasileiras mediu a qualidade do próprio suporte pela quantidade de contato realizado. Quatro visitas de campo por ano, reunião mensal por vídeo, grupo de WhatsApp ativo, universidade corporativa com conteúdo disponível, consultor designado por região. Isso mede atividade. É diferente de medir resultado. Uma visita que termina com café agradável e nenhuma decisão concreta pode ser, ao mesmo tempo, ótimo relacionamento e péssimo suporte. O Franchising 4.0 precisa transformar a lógica do suporte de campo em algo mais próximo de gestão efetiva do que de checagem de conformidade. Diagnóstico real da operação, indicador acompanhado no tempo, comparação objetiva com o benchmark interno, plano de ação com responsável e prazo, acompanhamento posterior, mensuração honesta do resultado. O consultor de campo deixa de ser quem percorre a checklist de padrão visual e passa a ser quem ajuda o franqueado a interpretar de verdade os números do próprio negócio. E o franqueado deixa de esperar que esse consultor apareça uma vez por trimestre para resolver, num passe de mágica, o que se acumulou em meses de gestão própria negligenciada.

Talvez essa seja, no fim das contas, a característica que mais separa rede madura de todas as outras. Ela sustenta conversa difícil sem que essa conversa vire ruptura definitiva. A franqueadora diz, olhando nos olhos, que a unidade está abaixo da média porque a execução local não está adequada, sem transformar isso em guerra pessoal. O franqueado diz que o modelo perdeu margem ao longo do tempo, com dado da própria rede sustentando a afirmação, sem virar automaticamente inimigo do sistema. A franqueadora reconhece publicamente que errou numa decisão estratégica. O franqueado reconhece, sem se sentir diminuído por isso, que não cumpriu integralmente a própria parte do combinado. Parece simples descrito assim. É raríssimo encontrar essa maturidade instalada como cultura, e não como exceção pontual, porque sustentar esse tipo de diálogo exige algo bem mais difícil de desenvolver do que qualquer investimento em tecnologia. Exige maturidade institucional construída com repetição e com exemplo vindo de cima.

Vale reforçar um ponto central que costuma ser mal interpretado. Conflito faz parte da própria arquitetura estrutural de uma franquia, não é sintoma de disfunção a ser eliminado por completo. O franqueador olha para a rede pensando em padronização, escala e proteção de marca. O franqueado olha para a própria unidade, enxergando particularidade local que a visão nacional às vezes não captura. O franqueador, na maioria dos modelos, recebe parte relevante da remuneração sobre o faturamento bruto da rede. O franqueado sobrevive daquilo que sobra depois de paga toda despesa operacional. Interesses próximos, majoritariamente alinhados no longo prazo, mas não idênticos no curto prazo, e fingir que são idênticos só adia o atrito real. A literatura sobre franchising reconhece, há décadas, essa tensão entre controle centralizado, autonomia local, confiança mútua e cooperação operacional. Estudo consistente ao longo do tempo mostra que satisfação, confiança e comprometimento genuíno são os três componentes centrais de relação sustentável entre franqueador e franqueado, e nenhum estudo sério sugere que ausência total de discordância seja um desses componentes. O objetivo de uma rede madura não é eliminar todo conflito, o que é praticamente impossível e talvez nem seja desejável. É desenvolver a capacidade institucional de transformar conflito em informação útil, e informação em decisão tomada em tempo hábil.

O que muda com dado estruturado e IA na rede

Inteligência artificial vai mudar profundamente a forma como redes operam nos próximos anos. Dado estruturado vai mudar a forma como decisão é tomada. Automação vai eliminar boa parte do trabalho manual que hoje consome tempo de equipe de suporte. CRM mais sofisticado vai permitir acompanhamento individualizado em tempo real. Nada disso está em discussão, e ignorar essas ferramentas seria erro estratégico grave para quem trabalha com expansão. Mas nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, resolve sozinha uma relação em que nenhuma das partes está disposta a aceitar responsabilidade pelo próprio papel. Dá para colocar o painel de indicador mais sofisticado do mercado na frente de um franqueado que não quer reconhecer a própria baixa execução, e ele vai continuar encontrando explicação alternativa. Dá para instalar inteligência artificial de ponta dentro de uma franqueadora incapaz de admitir que o modelo perdeu competitividade, e ela vai continuar, com a mesma disposição de sempre, culpando o franqueado que supostamente não executa bem o que foi entregue.

O verdadeiro Franchising 4.0 começa no momento em que uma rede decide sair da cultura de culpa mútua e migrar para uma cultura de evidência, responsabilidade e consequência. O franqueador entrega, com consistência, aquilo que só ele, pela posição que ocupa, tem condição de entregar. O franqueado executa, com disciplina, aquilo que só ele, na ponta da operação, tem condição de executar. Os dois medem o próprio resultado com rigor. Os dois prestam conta um ao outro com transparência. Os dois desenvolvem a capacidade real de ouvir o que o outro tem a dizer. E nenhum dos dois usa a falha alheia como justificativa automática para a própria omissão.

Não existe cláusula contratual capaz de formalizar isso, e nenhuma Circular de Oferta de Franquia vai trazer esse texto em letra miúda algum dia. Ainda assim, resumiria como o novo contrato psicológico necessário para sustentar rede de franquia saudável daqui pra frente. Da parte de quem franqueia: não prometo sucesso garantido, isso nenhuma franquia séria promete honestamente, mas prometo sistema competitivo, conhecimento acumulado real, marca com valor de mercado, suporte que resolve problema de verdade, capacidade de inovação contínua, transparência na decisão que afeta sua economia, disposição genuína para evoluir junto com a rede. Da parte de quem opera a unidade: não prometo concordar com tudo que a sede decide, isso seria irreal e provavelmente indesejável, mas prometo executar com disciplina, administrar minha empresa com competência, medir meu resultado com honestidade, aprender continuamente, cuidar da reputação da marca que carrego no letreiro, assumir integralmente a responsabilidade pela decisão que cabe a mim. E, dos dois lados, vale o princípio final, aplicado antes de qualquer discussão sobre culpa: quando algo dá errado, primeiro olhamos juntos para o fato disponível, e só depois discutimos responsabilidade específica.

Pode parecer modesto, descrito em poucas frases. Não é. Representa uma evolução significativa para um setor que passou as últimas décadas aperfeiçoando contrato, manual operacional, padrão visual, tecnologia de gestão e velocidade de expansão territorial, mas que ainda precisa aperfeiçoar, com a mesma dedicação técnica, a qualidade da própria relação humana e empresarial que sustenta tudo isso por trás do número. Porque, no fim de mais de mil projetos de consultoria acompanhando esse setor de perto, aprendi uma coisa que considero definitiva. Rede verdadeiramente madura não é aquela em que franqueador e franqueado concordam o tempo inteiro. É aquela em que nenhum dos dois precisa mais empurrar a própria responsabilidade para o outro, para continuar de pé, junto, com resultado real aparecendo na ponta do balcão. Isso, e nada além disso, é Franchising 4.0.

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